De avô para neto: a paixão pelo Corinthians, a admiração pelo Fenômeno e a coleção de camisas

Ana Paula Araújo

Engenheira de formação, mas corinthiana de alma. Deixei a profissão para fazer parte dessa família desde 2013.

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De avô para neto: a paixão pelo Corinthians, a admiração pelo Fenômeno e a coleção de camisas

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Daqui exatamente um mês, comemoramos 13 anos do primeiro gol do Ronaldo com a camisa do Corinthians. Pensando nisso, resolvi trazer uma histórica muito bacana que envolve o Timão, um corinthiano fanático e o Fenômeno.

O Guilherme Felipe é um torcedor do Corinthians que possui uma página no Instagram chamada "Coleção Ronaldo Fenômeno" onde retrata diariamente a carreira de Ronaldo Luís Nazário de Lima, o Fenômeno. A página já possui mais de 75 mil seguidores, incluindo o próprio Fenômeno. Ele compartilhou conosco sua história sobre a influência positiva do seu avô, o seu fanatismo pelo Corinthians e a idolatria por Ronaldo.

História de família e conexão com o avô

Guilherme nasceu em 1993 em um cenário familiar de muito fanatismo pelo Corinthians.
Os dias de jogos do Timão eram praticamente sagrados, com direito a festa e apoio incondicional durante os 90 minutos. Ele afirma ainda que, de 1997 para cá, se lembra de praticamente tudo sobre o Corinthians, e que a sua paixão foi herdada do seu avô Valter, que segundo o neto, foi o maior e mais otimista corinthiano que ele já viu.

Após a separação de seus pais, seu avô materno passou a morar com ele e a sua mãe, e que sempre contava histórias de ídolos corinthianos da sua época. Os nomes mais citados eram Sócrates, Rivelino, Zé Maria, Biro Biro, Casagrande, Zenon...

Além disso, todos os jogos eram acompanhados pela televisão ou rádio. Eles não deixavam de acompanhar um duelo sequer. Segundo o Guilherme, a relação entre ele, o avô e o Corinthians sempre foi muito forte. Tanto que o seu Valter exigiu que o neto saísse da maternidade com o manto alvinegro para que todos soubessem que a família corinthiana ganhava um novo integrante.

Guilherme disse que seu avô e ele, quando não assistiam jogos juntos pela televisão ou ouviam no rádio, se comunicavam via telefone no intervalo das partidas para conversar sobre os embates e possíveis alterações que deveriam ser feitas para conquistar o resultado positivo.

Sobre superstição:

"Logo na estreia, diante do Deportivo Táchira, na Libertadores de 2012, eu prometi que se conseguíssemos empatar a partida, assistiria todos os jogos da competição sozinho, no mesmo quarto, com a mesma camisa (que passou a ser da sorte). Naquela campanha me lembro de ligar para o meu avô praticamente em todos os intervalos e após o final das partidas. Conversávamos por horas sobre o jogo. Estar presente fisicamente no estádio era algo muito longe da nossa realidade financeira e geográfica", disse.

Ensinamentos

Dentre os principais ensinamentos do seu avô, Guilherme cita o apoio incondicional ao Corinthians.

"Me lembro de acompanhar os jogos da campanha de 2005 do Campeonato Brasileiro, e meu avô apoiando o então treinador Márcio Bittencourt durante a incrível recuperação que tivemos na tabela, ele assistia até outros jogos para garantir os resultados que precisávamos para ir subindo de posições. Como também, na campanha de 2007 onde caímos, apoiamos incondicionalmente a equipe e, após a confirmação da queda, ele me ligou e disse que nesse momento deveríamos provar que de fato éramos diferentes, que o Corinthians necessitava mais do que nunca do nosso apoio de maneira incondicional. A partir dali, eu comecei a usar ainda mais as minhas camisas do Timão, que na época eram umas duas ou três, no máximo. Não tenho dúvidas de que o meu avô era o corinthiano mais otimista e paciente que eu conheci", explicou.

Admiração pelo Ronaldo

Guilherme fala que aprendeu com o avô, desde muito pequeno, a acompanhar os jogos da Seleção Brasileira e a torcer muito por um ídolo que eles tinham em comum: Ronaldinho que, no futuro, se tornaria o Fenômeno.

"Desde que me entendo por gente, acompanhei os jogos da Seleção Brasileira e torcia muito pelo Ronaldinho. Tanto que, na Copa do Mundo de 1998, eu pedi para minha mãe para que me deixasse raspar a cabeça e ficar com o visual parecido com o dele. Meu avô, que gostava do meu cabelo mais comprido, aprovou a ideia. Além de jogos da Seleção, assistimos alguns do Campeonato Italiano e depois muitos do Campeonato Espanhol, quando ele passou a defender as cores do Real Madrid. Jamais imaginaríamos ter a sorte, de algum dia, ver o nosso ídolo jogar pelo Corinthians", relatou Guilherme.

No dia que foi anunciada a contratação, Guilherme fala que ligou imediatamente para o seu avô, que estava trabalhando, e que ele quase não acreditou que aquilo era verdade.

"Eu estava de férias na casa da minha tia, e ele (avô) trabalhava com um carro de som fazendo propaganda pela cidade. Quando liguei e contei, ele até estacionou o carro com medo de se envolver em algum acidente e disse que estava indo imediatamente almoçar para que nós pudéssemos assistir juntos às notícias esportivas relacionadas a esta surpreendente contratação, que não parou somente a cidade de São Paulo e sim o Brasil inteiro, que assistiu ao vivo a apresentação dele (Ronaldo) no Parque São Jorge", relembrou o torcedor.

Os problemas de saúde e o primeiro jogo no estádio

Após um ano fenomenal, em 2010 a esperança era contagiante. Pois, além de ser o ano do centenário do Corinthians, a equipe estava se reforçando muito bem para a disputa da tão sonhada Taça Libertadores da América.

Guilherme me disse que naquele ano, a abertura do Campeonato Paulista foi na sua cidade, era a oportunidade de ver o seu ídolo de perto.

"Quando eu soube que o jogo entre o Monte Azul e o Corinthians seria em Ribeirão Preto, fui logo comprar quatro ingressos na bilheteria para levar o meu avô, meu tio e o meu primo no jogo. Seria a nossa chance de ver Ronaldo e Roberto Carlos em ação. A realização do nosso sonho impossível. Porém, dois fatos impediram esse feito. O primeiro foram os problemas de saúde do meu avô, que já tinha sofrido cinco infartos e pensando na emoção que ele poderia sofrer estando lá, minha mãe optou por não o deixá-lo ir. O outro problema foi que, nem Ronaldo, nem Roberto Carlos, vieram para a partida. Mas, deu para sentir aquela emoção de estar em campo, aquela energia da torcida, e também ver outros ídolos que o time possuía no seu plantel. Mesmo o jogo terminando empatado, a festa estava garantida", disse.

Libertadores da América e a tão dura partida

Guilherme relata uma conversa que teve com o seu avô logo após a eliminação para o Tolima na pré-Libertadores de 2011.

"Me lembro que poucos dias após o meu aniversário, o Corinthians havia sido eliminado e o Ronaldo tinha anunciado sua aposentadoria. Meu avô me chamou para conversar e disse saber que não teria muitos anos de vida, pois, além de problemas cardíacos, vinha fazendo sessões de hemodiálise três vezes por semana, mas que em vida tinha realizado praticamente todos os seus sonhos, incluindo o de ver o Ronaldo atuar pelo Corinthians. Porém, faltava apenas uma conquista para ele ser o cara mais feliz do mundo: a tão sonhada Libertadores da América. Que graças a Deus conquistamos, e ele pode ter esse desejo realizado", disse.

Por ironia do destino, no ano seguinte o seu Valter veio a falecer.

"Na reta final do Campeonato Paulista de 2013, meu avô começou a ter perda de memória e tivemos que interná-lo em um hospital. Me lembro de que ele sempre me perguntava durante este período quando seria o jogo contra o Chelsea. Na memória dele, ele só se lembrava da conquista da Libertadores. Eu, com toda a paciência do mundo, contava em detalhes como havia sido a final, especificando ainda mais as defesas milagrosas feitas pelo Cássio. E ele ficava feliz momentaneamente, e logo depois já esquecia. Assisti junto com ele o primeiro jogo da final (do Paulista), onde vencemos por 2 a 1 o Santos, com gols de Paulinho e Paulo André. Na semana seguinte, ele passou a fazer o tratamento em casa e rapidamente ficou muito debilitado. Num único momento de lucidez que ele teve, ele me ligou e mandou eu pegar as duas camisas do Corinthians que tinha como presente. Logo depois já ficou ainda mais debilitado, ao ponto de nem conseguir conversar. Uma semana após a conquista do título Paulista, ele faleceu", lamentou o corinthiano.

Luto, legado e coleção de camisas

Após a partida do avô, Guilherme passou a deixar de fazer inúmeras coisas, incluindo acompanhar os jogos do Corinthians.

"Nunca passei por uma dor tão grande, um pedaço de mim morreu com ele fazendo com que eu evitasse realizar as coisas que me lembravam dele. Assistir o Corinthians era e é o que mais me remete a ele, então deixei de acompanhar os jogos por alguns meses. Dentro de mim ele ainda estava vivo e eu não sabia lidar com esse sentimento de perda, a ponto até de me perder um pouco na vida, durante os momentos em que não estava focado no trabalho ou nos estudos", explicou.

A partir daí, surgiu a ideia de colecionar as camisas do Corinthians e do ídolo que ambos tinham em comum.

"Depois de sofrer por alguns meses, me encontrei com um amigo do meu avô que não me recordo o nome, mas ele me disse que eu deveria fazer as coisas que ele gostava em vida para honrá-lo, amenizando aos poucos a dor do meu luto. E tive a ideia, despretensiosa até então, de colecionar camisas do Corinthians, pensei que conseguiria algumas do Ronaldo, no máximo de 2009 para cá. Desconhecia por completo esse mundo de colecionadores de camisas de futebol, onde existem inúmeras peças históricas e impecáveis. Em pouco tempo, busquei me aprofundar na carreira e história de vida do Ronaldo, lendo tudo o que era possível e estava disponível na internet. Pouco a pouco, consegui algumas camisas que jamais imaginaria ter e, na sequência, tive a honra de conhecer o Fenômeno a exatos dois quilômetros da minha casa. Tenho a certeza de que meu avô convenceu a Deus que eu merecia realizar este sonho, que eu acreditei ser possível, mas não da forma tão rápida e inesperada como foi. Depois disso, tive o prazer de estar com o Ronaldo de novo, trocamos uma ideia por uns trinta minutos, mas ainda não tive tempo o suficiente para contar a história detalhadamente, assim como estou tendo o privilégio de contar aqui. Espero um dia poder falar isso a ele, além de auxiliar outros fãs a realizar o sonho de conhecê-lo. Pois, ao longo destes quase oito anos de projeto, eu já vi milhares de pessoas que tem o mesmo sonho em comum, e só quem teve este privilégio sabe o quanto é marcante e especial. Foi o dia mais feliz que eu já vivi até hoje", completou.

Fotos da coleção de camisas e da vida do Guilherme

Confira algumas imagens cedidas gentilmente pelo Guilherme.

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

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Arquivo pessoal

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Guilherme e seu avô Valter

Guilherme e seu avô Valter

Arquivo pessoal

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Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

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Veja mais em: Ídolos do Corinthians, Torcida do Corinthians e História do Corinthians.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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