O Adeus ao Avallone, e a saudade de um futebol que não existe mais.
Opinião de Rafael Castilho
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Roberto Avallone, ícone do jornalismo esportivo.
Foto: Divulgação
Fiquei sinceramente comovido com o falecimento do Roberto Avallone.
Foram muitos e muitos domingos assistindo ao Mesa Redonda.
Uma época em que não tinha tevê à cabo, não tinha internet, não tinha whatsapp, a cidade não oferecia tantas alternativas de entretenimento. Na verdade, não tinha muito o que fazer. Pelo menos eu não tinha muito o que fazer.
O Corinthians era tudo pra mim. Era tudo o que eu tinha. Assisti durante anos e anos o Avallone. Foi parte da minha formação. Era aquela idade em que eu já era muito grande pra ser criança e muito pirralho pra parecer adulto. Essa fase é uma merda para os meninos. Você não é interessante pra ninguém. Nunca tem dinheiro pra fazer porra nenhuma. Em muitos lugares eu sequer podia entrar. Mesmo assim eu sinto saudades.
Lembro-me de um jogo que fui ao Morumbi para assistir Corinthians x Palmeiras, acho que foi em 1992 e o Corinthians ganhou por 2x1. Marcaram o Fabinho e o Viola. Foi uma festa incrível. Saindo do estádio uma multidão feliz cantava. Era incrível ver aquela massa toda na rua. Pra mim tudo era mágico. Eis que de repente avistamos o Roberto Avallone caminhando entre os corinthianos. Ele rapidamente foi cercado, mas respondeu com um sorriso simpático. “Parabéns, parabéns”, dizia ele. Eu dava muita risada. Um senhor meio bêbado dizia: “Ae, Avallone, hoje não tem programa”. Logo em seguida um outro torcedor corinthiano tirou um chapéu alvinegro de sua cabeça. Era um daqueles chapéus estilo pescador, repleto de distintivos do Corinthians. Logo em seguida, o senhor bem-humorado, colocou o chapéu na cabeça do Avallone. Minha nossa, ou melhor, “Meu Deus, exclamação”. O homem ficou bravo. Respondeu mais ou menos assim: “Pode tirar sarro, mas chapéu do Corinthians não!”. Tentaram colocar o chapéu outra vez e ele novamente se recusou, dessa vez com mais energia: “Não, sem chapéu!”.
Por incrível que pareça eu achei legal a atitude dele. Me pareceu honesta. Me identifiquei imediatamente. Eu jamais aceitaria colocar um chapéu do Palmeiras. Não haveria porque sentir raiva do Avallone por ele ser palmeirense. Talvez, eu o percebesse mais distante de mim se ele fosse indiferente. Se não estivesse nem aí. Respeitei o comportamento emocional do Avallone. Evidente que o Corinthians ter vencido o Palmeiras ajudava no bom humor de todos que cercavam o brilhante e carismático jornalista.
A verdade é que nunca me ofendeu o palmeirismo do Roberto Avallone. Sinceramente, não me lembro de nenhum momento em que tenha visto um comentário jocoso e desrespeitoso por parte dele se referindo ao Corinthians, como vi por várias vezes acontecendo com outros cronistas esportivos. Eu era um telespectador absolutamente fiel. Inclusive, me divertia muito quando ele ficava puto com as derrotas dos porcos.
Logo depois de seu afastamento nunca mais (nunca mais mesmo) assisti ao Mesa Redonda. Ainda mais sob a liderança de quem tem a boca repleta de preconceito, rancor e ódio contra os pobres. Nojento esse outro cara.
Nunca entendi muito bem o sumiço do Avallone das telinhas. Dava pra imaginar que ele era meio temperamental e até desequilibrado. Devia ser difícil para trabalhar em grupo ou se encaixar subordinado dentro de uma estratégia corporativa. Mas sempre tive certeza que ele dava muito ibope. Todo mundo assistia. Todo mundo comentava. Todo mundo imitava. Era muito legal.
Confesso que estou muito emocionado escrevendo esse texto. Engraçado tudo isso. A gente não manda nos sentimentos da gente. Até me escorrem algumas lágrimas. Nunca conheci o Avallone pessoalmente. Mas acontece que no fundo, mesmo não o conhecendo, percebo que sinto também saudades e luto por um futebol que não existe mais.
Sinto saudades das noites de domingo, sentado ao lado do meu pai no sofá, sem celular para mexer e distrair a atenção. Os dois assistindo ao Mesa Redonda. Meu pai falava que o Avallone era porco, mas era legal, já o Milton Neves ele não gostava.
Sinto saudades dos “ônibus da Erundina” que saiam da Prestes Maia e partiam para o Morumbi.
Sinto saudades dos clássicos com duas torcidas. Era pedagógico. A gente aprendia muito com aquilo. Algumas vezes a gente saia feliz, vendo o outro lado do estádio cabisbaixo. Outras vezes saia derrotado, vendo os outros celebrarem. A gente aprendia a conviver com as adversidades. Com a contrariedade. Com o revés. Hoje, mesmo num estádio com torcida única, as pessoas não aceitam mais as diferenças. Um quer dizer que é mais corinthiano que o outro. Se você assiste o jogo num lugar é diferente de mim que assiste em outro. Se fica de pé é diferente de mim que assiste sentado. As pessoas só parecem gostar de quem demonstra ser uma continuação delas mesmas.
Sinto saudades de ter que chegar cedo no Morumbi pra conseguir um lugar. De não ter nada pra fazer além de olhar para o campo. De passar horas conversando com meu amigo. Hoje sequer tenho tempo para atender aos telefonemas dele. A gente ficava comemorando a cada gomo do estádio que a Fiel avançava sobre os adversários em dias de clássico. Eu trabalhava como office-boy e me pesava muito menos comprar um ingresso para o jogo do que me pesa hoje em que tenho um cargo bem melhor. Hoje em dia tem até uma piscina ridícula no estádio do Corinthians.
Sinto saudades de como era gostoso comer aquele pernil na porta do estádio. Era um raro prazer, sabor de emoção. Sinto saudades de guardar os canhotos dos ingressos para a minha coleção.
Sinto saudades de quando eu só pensava no Corinthians. Dia, tarde, noite, era só Corinthians. Saudades de quando eu jogava botão. Saudades de quando eu sonhava ser um jogador de futebol. De quando eu imitava o Casagrande. Hoje tenho a idade de um ex-atleta.
Não que minha vida seja pior. Não que eu queira voltar no tempo. Não quer dizer que o mundo também não tenha melhorado em muitos aspectos. Nem pensar em passar por todos os meus sofrimentos outra vez nessa vida, sou mais feliz agora. Também jamais jogaria fora os títulos que vi o Corinthians ganhar esses anos todos.
Mas talvez eu sinta falta mesmo é da simplicidade das coisas. Da falta de sofisticação. De menos moralismo. De um mundo sem tantas opiniões absolutas.
Era legal assistir ao Avallone. Até hoje eu rio com diferentes programas. De quando o Guarani, em 1988 bateu o pé e se negou a jogar duas partidas em campo neutro na cidade de São Paulo e quis, com alguma justiça, levar a última partida para o Brinco de Ouro. Imediatamente o Vicente Matheus decretou: “ah é? Então primeiramente, devo-lhe dizer que nós vamos ganhar esse título lá na casa de vocês. Podem ficar com o mando de campo. Vamos vencer lá!” E assim foi, vencemos e fomos campeões! Lembro da Marlene Matheus dançando castanhola. Do Corinthians numa crise desgraçada, sem dinheiro pra nada, arriscado a cair para a segunda divisão, com seu caixa desfalcado de tanto roubo e o Dualib chegando para dar entrevista: “Caro Avallone. Quero me desculpar, mas a minha BMW é baixa e eu fiquei parado no alagamento”. Filho da puta, eu gritei!
Hoje eu rio.
Hoje eu choro.
Boa parte das minhas memórias de Corinthiano ficaram gravadas nos programas do Roberto Avallone.
Essa vida é passageira. Só espero viver mais amor e felicidade.
Que o amor vença o ódio!
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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