O domingo sem Corinthians

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians. Ele está no Twitter como @Rafael_Castilho.

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O domingo sem Corinthians

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O domingo sem Corinthians

Vitória do Corinthians contra o Ituano não passou na televisão - nem no pay-per-view

Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians

Domingo, dia de jogo do Corinthians. Tradicionalmente era assim. Na mesa macarrão com frango. Era o dia em que podíamos ficar todos juntos. Meu pai trabalhava muito, então eram especiais aqueles momentos em que sentávamos todos à mesma mesa.

Nesse dia rolava um refrigerante na mesa. Às vezes era Tubaína, às vezes Tang ou Ki Suco. O azeite era aquele “Maria”. Era ótimo! Tempos depois descobri que era um óleo composto, não era azeite. Mas não importava. Até hoje eu gosto. Tem gosto de infância.

Quem cresceu durante os anos oitenta se lembra como as coisas eram mais difíceis, principalmente o acesso à certos bens de consumo. Bom, pelo menos para nós era bem difícil.

A inflação era galopante. Meu pai recebia seu ordenado e corríamos para o supermercado que já estava lotado. Lá pelo dia 10 de todo mês, as pessoas se amontoavam para trocar o salário por estoque de alimentos. Se esperasse uns dias mais, o dinheiro já não alcançava. Certos bens de consumo simplesmente não existiam para nós. Pensando bem, essa voltou a ser a realidade de muitos brasileiros, mas esse não é tema para tratarmos agora.

Estávamos felizes à mesa. Algumas vezes, o almoço de domingo era na casa da minha avó. Outros em casa. Mas existia uma certeza, domingo era o dia do nosso Coringão.

Terminava o almoço. Quando o jogo era em São Paulo, a gente engolia rápido a comida pra dar tempo de chegar ao estádio. Por sorte, minha mãe nunca se aborreceu com isso. Até se apressava para servir o almoço para que eu pudesse ir logo para o jogo do Corinthians. Mesmo no Dia das Mães ela entendia meu lado. E sei de jogos históricos do Corinthians que ocorreram em Dia das Mães.

Quando o Corinthians jogava fora de São Paulo era terminar o almoço, ligar a televisão e se sentar no sofá. As vezes ligávamos o rádio antes do jogo para já esquentar o clima. Eu me sentava ao lado do meu pai. Quando saía um gol do Corinthians a gente se abraçava.

Acabava o jogo. Algumas vezes estávamos felizes, outras vezes ficávamos tristes. Mas tínhamos passado momentos juntos. Depois, era encarar de novo a semana. Meu pai tirando sarro ou sendo sacaneado no trabalho. Eu a mesma coisa na escola. Quando o Corinthians perdia, nós éramos derrotados juntos. Quando ganhava, éramos grandes vitoriosos.

O tempo passa, diria aquele grande narrador Fiori Gigliotti. As coisas foram mudando. Novas necessidades foram criadas. Veio a televisão à cabo. Os ingressos para os jogos ficaram muito mais caros. A festa das torcidas foi murchando.

A vida em geral foi ficando bem difícil. Mas havia uma certeza, tinha o Curinthia para a gente ver na televisão e ficarmos juntos esparramados pela sala. Para um trabalhador com uma vida simples, aquilo era um alento. Com todos os obstáculos que foram criados para a gente sobreviver, tínhamos essa alegria de sentar à frente da televisão para ver o Coringão.

Alguns diziam que era o ópio do povo. Outros que era alienação. Também diziam que era o circo e o pão. Não sei te dizer. Podia ser mesmo algo banal frente às grandes complexidades do mundo.

Podia ser realmente algum entretenimento, para que fôssemos retumbantemente enganados enquanto os grandes roubos e guerras aconteciam. Podia ser, mas era maravilhoso!

Podíamos ser inocentes. Podíamos nos contentar com pouco. Podia ser um preço muito barato para os poderosos. Nos colocavam sentados no sofá e nos faziam sentir que era tudo muito especial. Pode ser.

Mas acontece que para gente era realmente muito especial. Existia sim uma grande sabedoria que construímos ao sabor das circunstâncias que estavam postas. O Corinthians ao longo dos anos foi assim. Os poderosos acreditavam que só estávamos vendo o jogo, mas o Corinthians exercia um significado especial. Era uma representação da vida. Uma metáfora da realidade. Um instrumento de identidade. O Corinthians exercia uma força que cada um de nós sozinhos não podia exercer. Mas o Corinthians, abraçado por nós, se tornava mais forte e nós, agarrados ao Corinthians também nos tornávamos mais fortes e poderosos.

Talvez por isso fizeram de tudo para acabar com essa nossa experiência. Com o pouco que restava de felicidade.

Este domingo liguei a televisão. Não encontrei o Corinthians. Onde estaria o meu Corinthians?

O amor pelo Corinthians fez com que me adaptasse ao longo dos anos. Primeiro assinei a tevê à cabo. Depois fui obrigado a assinar o tal pay-per-view. Isso já complicou. Na minha casa ainda dei um jeito, mas para o meu pai era muito mais difícil.

Desculpem o texto longo. Só umas palavras sobre meu pai. Digo isso pois é a história de muitos corinthianos que me leem nesse momento. Meu pai nasceu em 1945. Conseguiu ver, pra valer, o Corinthians ser campeão em 1977, aos trinta e dois anos de idade. Sofreu muito o velho. As principais conquistas do Corinthians vimos juntos, pois a experiência era inédita para ambos. Meu pai que é um septuagenário se quiser ver o Corinthians no campo tem que criar uma conta de e-mail, fazer um login, comprar um pacote de Fiel Torcedor, ter um cartão de crédito ou pagar um boleto on line. Ao chegar no estádio não existe quase nenhum lugar em que possa assistir ao jogo sentado. Não sei se vocês sabem, para alguns, quem não assiste ao jogo de pé não é corinthiano. Meu pai é corinthiano faz mais de setenta anos, mas tem esse pequeno detalhe no estádio. Tudo bem, entendo um pouco o lado da torcida. Só acho que as pessoas deveriam pensar.

Agora, para meu pai assistir ao jogo, nem o pay per view funciona. Você tem que assinar uma plataforma de streaming. Uma não, precisa assinar várias. O que é streaming mesmo? Onde eu vejo o jogo do Corinthians nesse domingo?

Não tem mais sala, não tem mais tevê, a gente não se reúne mais. Aliás, quase nunca o jogo do Corinthians é no domingo à tarde, depois do almoço de família. Os horários são esquisitos.

Quem consegue, assiste ao jogo no próprio computador ou no celular. Cada um na sua. Em seu mundinho. Não há sinergia, não há encontro, não há cooperação, não há solidariedade. Tudo como manda o sistema.

Descobri que preciso comprar uma televisão nova. A minha já não serve mais. Descobri que minha televisão “não baixa aplicativos”. Não sou daquele tipo tarado por novidades, então quase sempre estou desatualizado.

Espero que o Corinthians esteja ganhando muito dinheiro para aceitar obedientemente esse tipo de coisa. Suponho que os patrocinadores que investem milhões para estampar suas marcas na camisa não gostem muito de ver o jogo fechado numa plataforma, ao invés de atingir as massas. Esse negócio é bom para quem? Acreditem, um dia esses patrocinadores também irão embora.

Primeiro perdemos os estádios, depois perdemos a tevê aberta, agora não falta mais nada, estamos perdendo o Corinthians. Qual o propósito de existência do Corinthians se não for para trazer felicidade aos corinthianos? Até mesmo o prazer de ver o Coringão nos roubaram.

A molecada quase que nem liga mais para futebol. Já não vão aos estádios, estão perdendo a cultura. Agora nem na televisão assistem aos jogos, ao lado da família. Não vão assinar o tal streaming, eles têm outros interesses.

A precarização do futebol é igual a todos os outros ciclos de exploração. Arrancaram o pau brasil até não sobrar mais nenhuma árvore, o ouro até sobrar apenas ruínas, o café até acabar com o solo (e com a economia), a soja até criarem desertos.

E no futebol assim será! Vão arrancar todo o dinheiro que for possível, até que não exista mais a cultura do futebol no nosso povo. Vão matar a galinha dos ovos de ouro.

Falo em termos econômicos e de mercado pois, para muita gente, os argumentos sociais, políticos, afetivos, históricos, de representação e identidade não passam de “mimimi”.

Como é só dinheiro que essa gente vê, então é isso. Até o dinheiro irá acabar, e não vai demorar.

Mas quem está explorando até a última gota não se importa com isso.

Texto melancólico, pessimista e rabugento. Pois é. Fiquei insuportável. Briguei com todo mundo. Comecei minha semana sem ter visto o meu Corinthians. É isso que me dói.

Veja mais em: História do Corinthians.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

Coluna do Rafael Castilho

Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians. Ele está no Twitter como @Rafael_Castilho.

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    Fabiano 99 comentários

    @fabianolhp em

    Parabéns Rafael, ótima reflexao e texto.

    Sim estão tirando o povo do Futebol, antes a dor era de não ver no estádio, hoje você se depara com a molecada não curtindo mais, ou simplesmente tratando a nossa paixao como coisa despresível, secundária ou banal...o futebol alegria do povo, perdurará até que as últimas gerações amantes dele, do rádio, da TV ou do estádio perdurem, porque os amantes do Smartphone, Laptop e tecnologia, não dará sequencia para isso.

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    Fabio 20 comentários

    @fabinhocorinthiano em

    Espetacular, lembrei da minha infância, não tiro uma letra desse texto, viajei para os anos 80, parabéns

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    Paulo 47 comentários

    60º. @paulo.grou em

    Parabéns pelo texto. Voltei no tempo. Saudade de meu velho pai. Corinthiano fanático. Se estivesse vivo, estaria sofrendo para acompanhar o Timão. Saudade de nossos domingos, onde a gente não era bem financeiramente, mas éramos felizes e não sabíamos.

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    Matrix.

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    58º. @irio.celso.soares em

    Rafael eu acrescento mais, não tínhamos televisão aí eu lavava a louça do almoço pra minha mãe me liberar e ir na casa dos primos... Satisfação imensa e no domingo após o jogo já esperava o próximo jogo aí era no radinho...

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    Getulio 294 comentários

    57º. @getulio.de.almeida em

    Eu sou corintiano a 50 anos sei muito bem o que significa todas essas expressões também passei por isso é a mais pura realidade vai Corinthians

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    Henrique 17 comentários

    56º. @henrique9 em

    Desde que acompanho futebol, já não se passava jogo do Corinthians todo domingo. Com todos jogos no mesmo horário a televisão tinha que escolher o jogo de mais audiência. Eu nunca tive coragem de assinar premiere. O preço é muito absurdo.

    Eu só acho que agora que os clubes tem mais poder sobre para quem eles vão vender suas partidas em casa, o Corinthians poderia disponibilizar suas partidas em alguma plataforma de streaming. Nem que tivesse que pagar um valor simbólico por jogo ou mensal. Já estaríamos melhor do que nunca estivemos.

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    Edson 21 comentários

    55º. @edson.anaici em

    Gostei muito do texto amigo, reflete não só o a vida do corintiano mas também da sociedade em geral. Valeu, tmj fiel.

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    Leonardo 404 comentários

    54º. @leonardo.cesar6 em

    Que texto lindo, que história linda com seu pai, e o fim realmente está sendo triste para todos nós. Por corinthianos igual a você e seu pai que eu nasci maluco pelo Corinthians. Me lembro de criança nos anos 90 pegar as revistas do meu bisavô, revistas da época em que seu pai nasceu, e me deixava maluco pensar que aquela paixão vinha a mais de 70 anos na minha família. Enquanto eu tiver como, continuarei fazendo de tudo pra que esse amor inexplicável pelo Corinthians continue nas próximas gerações.
    A sua reflexão foi perfeita, estão acabando com o futebol, assim como acabam com tudo por dinheiro, e essa geração atual mal sabe o que é futebol, da pra jogar no celular ou no computador? Sentir amor por um clube então... É de Free fire?
    Por mais corinthianos como você e seu pai no mundo, vai Corinthians!

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    Edson 21 comentários

    53º. @edson.anaici em

    Lindo texto man, não consegui terminar porque to na correria mas vou voltar. Se alguém puder comenta aqui pra notificar.
    Vlw vai Corinthians!

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