A síndrome de vira-lata e como ela ataca o futebol brasileiro
Opinião de Tomás Rosolino
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O Corinthians foi campeão do Mundial de Clubes em 2000
Foto: Agência Estado
A quarentena imposta a bilhões de pessoas no mundo tem seus efeitos práticos sobre diversas atividades. No Brasil e, mais especificamente, em quem curte e comenta futebol, tem feito as pessoas revisitarem jogos do passado e tentarem reformular teorias fundamentadas por anos. Vou tentar desmistificar uma aqui: a síndrome de vira-lata que ataca o futebol brasileiro (com um pouco de clubismo).
Vou começar por um tema que voltou a ganhar força recentemente, com a disputa do Flamengo no Mundial. Reverberou-se, erradamente, que os cariocas jogaram mais do que os outros times brasileiros que foram ao Mundial no século. Mesmo os que ganharam. Pintou-se o Corinthians como um time que se defendeu e surpreendeu o Chelsea em uma bola. Loucura.
Quem acompanhou o duelo sabe que a disputa foi bem nivelada, com momentos de domínio dos dois lados, e chances de gol parelhas. Ganhou quem tinha um goleiro inspirado e uma equipe mais coesa. E é daí que parte meu segundo raciocínio: a contradição da crítica esportiva.
O jogador brasileiro é tratado como pouco profissional e, em suma, um atleta que tende a não triunfar na Europa por causa da ética de trabalho lá imposta. Vejo muita verdade nisso, baseado em um contexto sócio-econômico que se impõe pelo mundo neoliberal e que joga muitos jovens brasileiros à própria sorte, sem o básico para viver.
Posto isso, fico impressionado ao ver que, quando se analisam disputas Brasil x Europa, a régua muda totalmente de lado. Os festeiros brasileiros jogam 100% concentrados, dando a vida, enquanto os super profissionais europeus não passam de irresponsáveis que não respeitam o jogo, mal se importam com um torneio da Fifa e ainda curtem festas na preparação.
Fica evidente que há uma dose de desmerecimento clubistas nas conquistas recentes dos brasileiros, principalmente da década de 90 para cá (Corinthians, duas vezes, São Paulo e Internacional), mas também que a síndrome de vira-lata perante os europeus adapta o discurso conforme a necessidade.
Por exemplo: em 2000, o Corinthians e o Vasco fizeram grandes jogos contra os gigantes europeus Real Madrid e Manchester United. Pipocam entrevistas com jogadores que estavam nos europeus à época dizendo que aqui era muito calor e os atletas ficavam na piscina do hotel. Como se Marcelinho Carioca, Edilson, Vampeta, Romério, Edmundo e Viola tivessem se preparado com o exército para disputa...
Ou seja, como regra, o que vem da Europa é super profissional e superior ao que sai do Brasil. Mas, quando o Davi bate o Golias, tudo muda e vira obra de um curioso espaço de tempo em que as coisas se inverteram. Mas logo volta ao normal
Se já não ficou claro, considero que os times brasileiros campeões do mundo têm total mérito na conquista e encararam o melhor possível dos seus adversários. "Ah, mas o Barcelona não jogou bem contra o Inter". Discordo, mas poderia acontecer, assim como não jogou bem em outras milhares de partidas na sua história. É futebol, acontece.
Termino esse texto pedindo que se dê mais mérito ao que fazemos por aqui e valorizemos o que o Brasil construiu. Futebol é a única atividade globalizada em que atingimos a excelência dentre os excelentes. Não cabe a nós tentar diminuir isso para proteger os "desinteressados" estrangeiros.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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