O que o algoz do Fluminense no Mundial tem a dizer ao Corinthians?
Análise de Victor Godoy
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João Pedro começou sua carreira em uma sede do Chute Inicial, escola de futebol do Corinthians, em Ribeirão Preto
Foto: Reprodução
Após a vitória do Chelsea, da Inglaterra, sobre o Palmeiras, gerou surpresa o fato que João Pedro, centroavante londrino, começou a carreira em um Chute Inicial, escola de futebol do Corinthians, em Ribeirão Preto. Contudo, foi para o Rio de Janeiro defender o Fluminense, clube que acabou sendo algoz no Mundial anos depois. O caso abriu um pequeno debate sobre a captação do alvinegro paulista, tendo em vista que o jogador nunca chegou perto de pisar no Parque São Jorge.
O tópico não é simples e, evidentemente, tem muito a ver sobre administração do Corinthians.
O setor de captação do Corinthians é bastante precarizado. Isso precisa ficar claro. O principal problema é que não é uma área que aparece nos informes financeiros do clube, consta apenas como um investimento de base. O mesmo dinheiro que vai para pagar salários, auxílios financeiros e contratar 87 jogadores para Sub-17 e 20 vai, também, para enviar observadores - os famosos olheiros - por aí. Como não existe uma reserva financeira, fica refém de decisões da diretoria, que também tem outras diversas preocupações.
Paradoxalmente, o trabalho do captador é silencioso e só dá resultado muitas vezes em coisa de dez anos. João Pedro, por exemplo, mudou-se para o Rio de Janeiro em 2010, quando tinha nove anos, e só foi estrear no profissional do Fluminense em 2019, com 17 para 18 anos. Envolve uma paciência que muitos clubes não têm, ainda mais um endividado como o Corinthians.
Cubro a base do Corinthians com afinco desde 2023 e o que pude acompanhar é que a captação tira leite de pedra com o que tem à disposição. É um investimento baixíssimo, ainda mais se comparado a Palmeiras e Flamengo, que atacam ferozmente para contratar crianças - lembram do Flora? Apesar disso, tem resultados evidentes: Wesley, Gabriel Moscardo e Breno Bidon, astros da "geração 2005", que foram contratados entre 11 e 14 anos via observadores. Lucas Lopes, o único jogador do Corinthians convocado para a Seleção Brasileira Sub-15, foi captado aos 11 anos.
Isso falando de um departamento de captação com excelentes profissionais, mas que atua quase exclusivamente em regiões próximas da capital de São Paulo por não ter investimento para viajar o Brasil.
O Corinthians me parece que se sustenta muito em sua forte marca. "Você tem que ver como é difícil captar jogador para outros clubes", chegou a me relatar uma outra fonte que já atuou no Parque São Jorge e que está em outra agremiação durante uma conversa. Essa popularidade, porém, não faz com que o Timão invista como deveria.
Pior é que o Corinthians às vezes até atrapalha. Com a exclusão do Movimento dos Clubes Formadores, o Timão vem sofrendo um esvaziamento de calendário nas categorias de Sub-15 para baixo, tendo em vista que ninguém quer comprar a briga do clube. Chegou ao ponto do departamento de captação precisar organizar um torneio com diversas escolhinhas de futebol e equipes menores para manter os atletas dos Sub-7 ao 10 em campo. Nesse cenário, você enquanto pai, preferiria levar o seu filho para o Palmeiras ou para o Corinthians?
Sandro Silva, chefe de captação do Corinthians (resumindo: olheiros), divulgou em suas redes sociais um balanço de 2024. Foram mais de 131 mil atletas observados e 131 aprovados nos testes. Número bem interessante
— Victor Godoy (@victor__godoy) January 31, 2025
Vale lembrar: a captação atua com foco no Sub-7 ao 13#MeuTimao pic.twitter.com/JNPVk0kiGB
Chute Inicial: um gigante corinthiano adormecido
O Chute Inicial possui escolas em todo o Brasil e até no Japão. O problema? É tudo terceirizado
Pedro Paulo Diaz / Corinthians
Pessoas do Corinthians já me falaram algumas vezes do potencial do Chute Inicial. É um projeto que vai do Brasil ao Japão pelas diversas escolas, só que como é terceirizado, no esquema de filiais, o clube do Parque São Jorge não tem nenhum controle sobre o que acontece lá. O João Pedro, por exemplo, nunca esteve em nenhum radar do clube.
Um projeto interessante, que uma fonte já me relatou, seria montar uma teia para ter pessoas desses Chutes Iniciais ou ter olheiros do clube monitorando. Surgiu algum jogador interessante? Traz para o Parque São Jorge para avaliar. Teria um investimento consideravelmente baixo e permitiria ao Corinthians monitorar jovens de todo o Brasil e até mesmo do Japão.
Todo esse projeto, claro, fica refém da disposição do Corinthians, que costuma ser baixa para investimentos na base. Aqui é bom também ressaltar como o Timão costuma tratar o Terrão como um custo, não investimento.
Base não é custo, é investimento. João Pedro mostrou isso para o Fluminense e, de rebote, também mostrou para o Corinthians.
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