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Post de Fausto no fórum "Bate-Papo da Torcida" do Meu Timão

O dia 04 de julho de 2012 amanheceu diferente.

Assim que abri a janela, notei que a luz que entrava em meu quarto não trazia o amarelo pálido do sol de inverno. Não. Havia alguma coisa diferente do lado de fora.

Tudo estava preto e branco.

Até o vocabulário das pessoas havia mudado. Não havia mais “bom dia”, ou “boa tarde”. Todos eles foram substituídos por uma frase, também de duas palavras, que resumia tudo o que sentíamos naquele momento: “VAI, CORINTHIANS!”.

Recebi telefonemas de pessoas que eu sequer lembrava que existia. E as mensagens apenas variavam entre “é hoje, hein? ” e “bom jogo hoje à noite”. E, como esperado, não houve “Tchau”. Houve “Vai, Corinthians!”.

A televisão, o rádio, o retrospecto, o técnico, quem será o herói?, quem será o vilão? Os que já ganharam, os que já perderam, a frente do estádio, os cambistas, as bandeiras, gente que veio de longe, gente que estará lá, gente que assistirá em casa, gente que trabalhará na hora do jogo, gente que estará viajando...

Era o jogo da vida. Não era brincadeira.

Não demorou muito para que os primeiros fogos estourassem. Da mesma maneira, os primeiros antis também já haviam se manifestado, comprovando mais uma vez a insignificância do clube que dizem torcer.

À medida que o horário de início da partida se aproximava e o coração passava a bater mais forte, as superstições também começavam a ser colocadas em prática. Aquela camisa, aquela posição no sofá, aquele lugar no estádio, com a mesma roupa, tudo tinha que estar alinhado para o que viria a seguir. Não poderia haver falhas.

Chegava a hora.

Eles entram em campo. O branco da camisa reluz. Eles estão tranquilos. Concentrados. Jorge não cruzou direito essa bola. Eita, o goleiro deles machucou, vai ser trocado! Chuta, Paulinho! Estamos bem, estamos bem. Começou o segundo tempo. Foi falta! O que esse Riquelme tá enchendo nosso técnico? Sobe, Jorge! Vai Danilo! Calcanhar!

Sheik! Golaçooooooooo!

É hoje! É hoje, é hoje, tem que ser hoje.

Não recua, por favor. Continua assim. Esse careca do time deles já não jogou aqui? Olha a cabeçada! Defendeu, Cássio! Vai Sheik, pressiona! Tomou a bola! Vai! Vai! Tá sozinho! Chuta! É goooooooooooool! Coloca o Romarinho! Não vai colocar? Mano, o Sheik mordeu a mão do cara! Hahahahaha Falta pra nós! Vai, Chicão! Golaaaaaçooooo! Ah, foi por fora da rede! Pqp! Acaba juiz! Acaba, juiz, seu filho da p***!

Acaba logo!

Levanta a taça, Alessandro!

Então tudo acabou.

E quando hoje me perguntam do que me lembro entre as 21h30 e as 23h30 dia 04 de julho de 2012, as memórias me confundem. Porque para mim, tudo passou rápido, como descrevi nos parágrafos acima. Sei que para alguns foi o jogo mais demorado de suas vidas, mas para mim inexplicavelmente passou voando.

Ali eu não conseguia falar, porque as lágrimas falavam por mim. E, mesmo se conseguisse, os fogos que só cessaram no dia 07 de julho calavam minha própria voz.

Então veio o dia 05 de julho. Acordei cedo para comprar os jornais e as revistas-pôster do título (superstição é superstição, lembram? ). Então abri a janela...

O sol de inverno estava amarelo pálido novamente. Claro que o assunto na rua continuava o mesmo, o “Vai, Corinthians!” retumbava mais forte e os antis ainda não davam as caras, remoendo o pior dia de suas vidas. Mas o telefone não tocou mais. Aquelas pessoas que eu havia esquecido, esqueci novamente. O coração batia normal, as lágrimas não caíam mais.

Encontrei um amigo, torcedor de outro time que já havia vencido aquele torneio antes e a pergunta dele me causou estranheza.

— E então, hoje está se sentindo mais corinthiano?

A minha resposta não poderia ser outra, a não ser:

— Não. Nem mais, nem menos corinthiano. Isso não se mede.

Foi aí que eu compreendi. Talvez os psicólogos possam explicar melhor o que senti no dia 04 e não senti mais no dia 05.

Não falo de emoção, nem de orgulho. Esses podem vir de diversas maneiras ao longo de nossa existência, um nascimento, uma formatura, um filme, um casamento, até mesmo jogos menos badalados (me arrepio até hoje com o gol do Fábio Baiano machucado em 2004), até mesmo jogos mais badalados como aquele no Japão meses depois.

Muitos daqueles valentes em preto e branco tomaram outros rumos. Um único Gigante ainda está entre nós, talvez para lembrarmos que nossa paixão não foi criada naquele dia e que ela continua nos dias de hoje.

Falo de outra coisa. Falo de energia. Aquela coisa que estava no ar e que não apenas podia ser sentido. Podia ser tocada. Um sentimento inédito para mim. Aquilo criado pela batida em nossos corações.

Sim, sei que vamos ganhar outras dessas. Até timeco sem importância já ganhou mais de uma.

Mas o que eu vivi no dia 04 de julho de 2012 eu jamais viverei novamente.

em Bate-Papo da Torcida > O meu 04 de julho de 2012 - Pequena Crônica

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