Paulo Araújo
O antídoto é a saúde financeira dos clubes. Enquanto tiverem problemas com o fluxo de caixa, a balança penderá para o empresários. Se os clubes não precisassem vender a qualquer custo, a relação seria diferente. Portanto, o erro não está na lei e sim na gestão dos clubes.
em Bate-Papo da Torcida > A criação da figura do empresário destruiu o futebol brasileiro
Em resposta ao tópico:
Meu amigo e minha amiga, a Lei Pelé foi, sem dúvida nenhuma, um marco para o futebol brasileiro. A intenção era boa: modernizar o esporte, proteger o jogador e acabar com certas relações abusivas que aconteciam. Só que, como dizia Aristóteles, "a virtude está no meio", e, nesse caso, o meio-termo se perdeu completamente. Quando o governo resolve intervir de forma radical, o efeito pode ser justamente o oposto do esperado.
Do dia para a noite, os clubes perderam o famoso "passe", que passou a ser controlado, na maioria das vezes, pelos empresários. Isso criou um paradoxo violento: quem investe, quem forma, quem revela o talento acaba ficando sem poder sobre o próprio fruto do seu trabalho. O clube gasta tempo, dinheiro, estrutura, cuida do menino desde a base... E, na hora que ele desponta, simplesmente vai embora sem uma compensação justa.
Isso é legal? É ético? Filosoficamente falando, esbarra-se em um dilema clássico de justiça distributiva: a recompensa simplesmente não acompanha o esforço. O resultado está aí, escancarado: os empresários acumulam cada vez mais poder e dinheiro, enquanto os clubes, que deveriam ser a espinha dorsal do nosso futebol, vão à falência, e as categorias de base vão definhando. Pierre Bourdieu, se olhasse para isso, diria que o "capital simbólico" foi transferido para quem já detém o poder econômico, e não para quem realmente constrói o talento.
Óbvio, não estou dizendo que o jogador deve ser refém do clube — longe disso. A liberdade profissional é sagrada. Mas o ponto é que a lei foi feita sem levar em conta a instituição que forma, educa e revela o atleta. O resultado disso é um desequilíbrio estrutural que enfraquece o futebol brasileiro como um todo.

