Lalo Salamanca
Não faltam exemplos históricos que reforçam essa tese.
Bastou o título paulista de 1977 encerrar um jejum de 23 anos para provocar uma celebração gigantesca. Hoje, olhando esse episódio, demonstra algo curioso: durante mais de duas décadas sem grandes conquistas, a torcida não diminuiu. Pelo contrário, cresceu.
O primeiro Campeonato Brasileiro só veio em 1990. A primeira Libertadores apenas em 2012. Entre uma conquista e outra, houve longos períodos de frustração, campanhas decepcionantes e temporadas em que o clube parecia distante do protagonismo nacional.
Ainda assim, a arquibancada continuava lotada. A identidade corintiana parecia se fortalecer justamente nos momentos de dificuldade. Para muitos, isso era a maior virtude da torcida.
Acredito que nós, torcedores, desenvolvemos uma capacidade extraordinária de conviver com a escassez de títulos sem transformar essa insatisfação em cobrança permanente contra quem comandava o clube. Enquanto outras torcidas mediam seu orgulho principalmente pelas conquistas, a corintiana frequentemente encontrava motivos para celebrar a própria resistência, a própria fidelidade e o próprio sofrimento compartilhado.
Isso ajudava a explicar por que tantas administrações ruins e péssimas, anos de planejamento deficiente e resultados abaixo do potencial do clube muitas vezes não produziam uma pressão proporcional. O amor da torcida era tão grande que sobrevivia a qualquer fase.
A questão é se, em alguns momentos, essa lealdade não acabava se transformando em tolerância.
Afinal, poucos clubes do mundo conseguem atravessar décadas de altos e baixos vendo sua torcida crescer continuamente. Isso é uma demonstração impressionante de paixão. Mas também pode significar que a instituição recebe um crédito que quase nenhum outro clube receberia.
Hoje, olhando para o passado e vendo onde estamos agora, a história do Corinthians mostra não apenas a força de sua torcida, mas também o quanto ela está disposta a continuar apoiando mesmo quando tem razões para exigir mais.
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