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Post de Alan no fórum "Bate-Papo da Torcida" do Meu Timão

Tópico ridículo. Quando vem com essa conversinha de 'precisamos discutir sobre tudo' deve ser daqueles ideólogos amantes do marxismo e afins, e sabe por que eles não veem problema em fazer isso com religião? Porque nessas ideologias podres a religião deles é um lixo de um líder 'libertador' que promove a 'revolução'.

em Bate-Papo da Torcida > Corinthianismo, religião e silêncio

Em resposta ao tópico:

Nunca criei um tópico aqui no Meu Timão... E o primeiro que eu crio, já sei, vai ser muito polêmico. Mas é que têm questões que não dá pra evitar um posicionamento... Essa da campanha de marketing do Corinthians, que mistura marketing, religião e futebol – e política... E sociologia... E comunicação... E... Um monte de coisas sobre as quais não dá pra gente ficar calado e não se posicionar.

Senta, que lá vem história!

O que está causando tanto incômodo no final das contas? Tenho visto, aqui no Fórum, opiniões que falam que 'não se mistura futebol com religião', que 'não podemos discutir futebol, política e religião', que 'com essas coisas não se brinca', que 'é um absurdo, que isso acaba com a família brasileira' e tal e cousa e lousa e mariposa (essa expressão acho que é do Mauro Beting?, não lembro...)

Bom, com todo respeito a tais opiniões, mas, sinto muito, vocês estão errados. Estão errados, especialmente, quando falam que isso, aquilo e aquilo outro não se discute. Foi essa ideia – absurda, errada, sem sentido – que nos trouxe para essa desgraça que está em cima de nós, hoje. Sim, estou falando de política. Pegue um jornal político e leia. Mas leia as entrelinhas, informe-se DE VERDADE sobre o que está acontecendo. O que acontece no Brasil, hoje, é completamente fora dos padrões de qualquer normalidade, é nojento, é fora do marco civilizatório. O que isso tem a ver com o Corinthians e com a campanha de marketing, você está perguntando? Pera que eu já chego lá!

A questão da campanha em si NÃO É a questão da religião; a questão seria a apropriação da simbologia de uma crença em específico, no caso, as religiões cristãs. Essa é a reclamação, afinal de contas: a utilização da simbologia do batismo; o paralelo que se traça entre o Cristo crucificado e o torcedor crucificado na trave e aí por diante. Fique com essa ideia, do paralelo entre Cristo e o torcedor que sofre, a gente vai voltar sobre esse tema.

Volto a insistir: tudo TEM QUE SER DISCUTIDO – futebol, religião, política. A não discussão, do que quer que seja, é o emburrecimento das pessoas: 'ah, não! Não pode falar disso! Não pode falar daquilo!' Esse silenciamento é censura; no caso, censura auto-aplicada. Olha só, que coisa interessante... A própria sociedade é ENSINADA para não debater determinados assuntos. A quem isso interessa? Quem quer nos manter em silêncio?

Por isso, é tão importante a figura do Sócrates, o nosso Magrão, o eterno doutor, quando ele fala do Corinthians, que “o Corinthians é uma voz, uma voz dos despossuídos, uma voz que o povo usa para cobrar', só que para cobrar o time, exigir do time uma felicidade que a gente, o povo, não encontra em lugar nenhum. Uma felicidade que nos é negada, que a gente devia encontrar. Esse aspecto político do Corinthians é importantíssimo. E, infelizmente, nem todo corinthiano compreende isso. Não estou aqui querendo cagar regra nenhuma, falar que fulano é mais corinthiano ou menos corinthiano que outro por causa dessa ou daquela regra. Mas o fato é que o corinthiano que não entende que o Corinthians é a força do povo, que não se reconhece como povo... Esse corinthiano, sinto, não entendeu nada... Esse fiel perde muito da experiência do que é ser Corinthians.

A minha reclamação quanto a se estabelecer um “corinthianismo” marqueteiro vai nesse sentido, não no sentido da apropriação da simbologia religiosa, mas na questão de um certo “esvaziamento” do poder do Corinthians. O Corinthians não é “só” do povo! O Corinthians É o povo! “O Corinthians vai ser o time do povo e o povo é que vai fazer o time”, a imortal frase de Miguel Battaglia, nosso primeiro presidente, resume tudo o que o Corinthians é, tudo que nós queremos ser, hoje e sempre. E ser corinthiano passa pela compreensão disso: se reconhecer povo, “maloqueiro e sofredor, graças a Deus!”.

E já que voltamos à questão de Deus, vamos falar do corinthianismo e da religião.

Aonde exatamente está o desrespeito – qualquer que seja – à religião? De novo, TODO ASSUNTO é do domínio humano, inclusive a religião. Eu não entendo esses religiosos que criam uma figura divina que é tão intocável que pode ser afetada por qualquer nova relação estabelecida, que não pode resistir a uma discussão sequer. Sim, entendo que a religião toca em dogmas – é por esse motivo, aliás, que o Estado é laico; se a questão é dogmática, se eu não posso convencer você, meu amigo religioso, pela razão, a questão religiosa não pode se imiscuir nas questões do Estado. Aí você vai dizer que me pegou, que, já que é assim, a religião também não deveria se misturar com o futebol. Não me pegou, não... Obviamente, tratam-se de conceitos bastante distintos – futebol e Estado. O Estado precisa ser neutro, pois serve a todos. Daí a exigência que não tome partido, que não tenha religião. Por que o Estado deveria adotar a religião cristã, afinal? Por que não as religiões de matrizes africanas? Por que essa vertente cristã e não aquela outra...? Veem como é difícil, como não deve ter mistura de religião com Estado?

O futebol, por outro lado, é uma diversão, uma arte e – hoje em dia, infelizmente – um negócio. A criação dessa ideia de corinthianismo atende mais essa última faceta do futebol, a de negócio. Minha crítica maior é dentro desse viés: a apropriação do futebol como negócio.

Mas a figura de Cristo como um torcedor sofredor? Qual o problema aí? Se Jesus Cristo estivesse no Brasil, além de se horrorizar com o nosso atual governo – que parece não conhecer muito a figura de Jesus –, imagino que Ele ia curtir o futebol, futebol como arte, como diversão, como fruição popular, digo. É claro que Ele não ia poder declarar torcida pra ninguém, diria que torce para todos, todos são seus filhos, afinal de contas. Mas aposto que ele ia ter um lugar especial no coração para o Corinthians, essa força do povo. Vejam, eu não sou um cara religioso, mas também estou do lado de Jesus. Do pouco que sei das histórias que a Bíblia conta, lembro que Jesus é Deus... Mas também é homem, também entende das questões humanas... E também entende do sofrimento, do sofrimento do homem, do sofrimento desse povo, que tanto tem sofrido, que sempre, sempre, sempre continua a sofrer. A gente é “corinthiano, maloqueiro e sofredor, graças a Deus!”. O Corinthians é, sim, uma religião. Mas é MUITO MAIS DO QUE APENAS ISSO! Eu queria enfatizar mais esse aspecto do que qualquer outro. Eu ainda enxergo um futuro onde todos nós – corinthianos apostólicos, corinthianos umbandistas, corinthianos agnósticos (é o meu caso), corinthianos de todas as crenças... E inclusive aqueles que, coitados, não são Corinthians (mas também são irmãos, porque somos todos) – todos estejamos unidos contra essas forças que nos oprimem, que acabam com a vida da gente, que sempre mantém o povo esmagado, sempre no sofrimento.

Não se incomode por pouco, mano. Quando o Corinthians faz uma campanha dizendo que o Corinthians é uma religião, isso em nada diminui a sua fé, qualquer que seja ela. O seu Deus não se incomoda com isso, o Corinthians não está querendo se apropriar de espaço nenhum, de um espaço exclusivo reservado às religiões. Tudo tem espaço no mundo – menos a incompreensão, menos o fascismo, menos o ódio... Que não deviam ter espaço... Mas infelizmente tem tanto disso por aí...

(Se é pra se incomodar com alguma coisa, se incomode com o ódio das elites, com aquilo que as elites fazem contra você, com o ódio que as elites voltam contra essa força do povo – o Corinthians. O grande ódio que certos setores dedicam ao Corinthians vem daí: é primeiro de tudo uma questão de classe. Por isso, a gente tem sempre que jogar com garra e com o coração!)

Agora, dizer que o Coringão cabe na definição de uma campanha de marketing, apenas, é muito pouco. O Corinthians é muito maior, feito para voos mais altos. Aqui, temos uma nação, uma religião, uma voz, uma voz que deveria SEMPRE ser ouvida, uma voz que nunca se calará. É a voz do povo, afinal.

“É o time do povo, é o Coringão!”

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