O que esperar de Emily Lima no comando do Corinthians?
Opinião de Maria Beatriz de Teves
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O que esperar de Emily Lima no comando do Corinthians?
Foto: Rodrigo Gazzanel / Agência Corinthians
O que esperar de Emily Lima no comando do Corinthians Feminino? Uma técnica retranqueira?
Eu, sinceramente, acho que não é bem por aí.
Sim, em outros clubes por onde passou, Emily precisou adotar uma postura mais conservadora. Mas é preciso olhar o contexto. Em muitas dessas equipes, ela não tinha em mãos um elenco competitivo. Nessas situações, ser “retranqueira” não é uma escolha estética. É jogar com as armas que se tem.
No Corinthians, o cenário é outro. Talvez seja a primeira vez que Emily terá, de fato, um elenco bom e competitivo. É claro que há carências pontuais - especialmente nas laterais e na zaga -, mas, no geral, trata-se de um grupo forte, experiente e vencedor.
Conversei sobre o tema com Francielle Alberto, ex-jogadora do clube e que trabalhou com Emily tanto como companheira de equipe quanto sendo comandada por ela. Para Fran, dentro das opções analisadas pelo clube, o nome de Emily era o mais adequado. O Corinthians, vale destacar, ainda analisou Felipe Freitas, do Bahia, e Marcelo Frigerio.
Para mim, é o melhor nome. Pela personalidade que ela tem e por já ter experiência no Brasil também. Claro que faz tempo que ela não trabalha aqui, estava fora, na Seleção do Equador, na Seleção do Peru, foi para o Levante agora. Mas é uma pessoa que estuda muito, que se prepara muito. Não vai faltar da parte dela e da comissão.
Muito se fala sobre os números recentes no Levante. O aproveitamento foi baixo - cerca de 3%. É pouco? Sim, é. Mas números não contam toda a história. Se contassem, Lucas Piccinato ainda estaria no Corinthians, afinal foram apenas dez derrotas em mais de 100 jogos.
Fran também pondera esse ponto. Para ela, é injusto comparar realidades tão distintas. Segundo a ex-jogadora, até técnicos mais renomados teriam dificuldade diante da fragilidade dos elencos que Emily encontrou, tanto no Peru quanto no Levante. Após sua saída da equipe espanhola, os resultados pouco mudaram: em dez jogos, foram apenas duas vitórias, um empate e sete derrotas. Ou seja, o problema não parecia estar exclusivamente no comando técnico.
Eu acho injusto fazer essa comparação, porque até algum outro treinador mais famoso, com mais experiência, teria um resultado diferente do que ela teve nesses dois lugares, muito pela fragilidade das equipes, tanto no Peru quanto no Levante. Ela saiu, e a equipe continua apanhando, continua perdendo.
Dentro de campo, Emily é conhecida por cobrar muito. Gosta de equipe organizada, compacta, com sistema defensivo sólido. Valoriza a posse de bola e, quando há espaço, quer um time agressivo para machucar o adversário. Características que dialogam com o DNA recente do Corinthians.
Um dos esquemas mais utilizados por ela é o 4-1-4-1, semelhante ao que Piccinato utilizou na Copa das Campeãs, competição em que o Corinthians foi vice ao perder na prorrogação para o Arsenal, no Emirates Stadium. Uma linha de quatro na defesa, uma volante protegendo a zaga, outra linha de quatro mais adiantada e uma referência no ataque. Com o elenco atual, a tendência é que a base estrutural não mude tanto.
Fora das quatro linhas, Emily também carrega a marca da personalidade forte. Na Seleção Brasileira, reivindicou melhores condições de trabalho e, posteriormente, acabou demitida, recebendo apoio público de jogadoras - algumas, inclusive, deixaram a equipe após sua saída, entre elas a própria Fran. No Peru, também atuou para melhorar estruturas que eram bastante precárias.
E talvez seja exatamente disso que o Corinthians precise neste momento.
O clube vive turbulências fora de campo - e isso não se restringe ao feminino. Em momentos assim, é fundamental ter alguém que saiba blindar o elenco e, ao mesmo tempo, cobrar organização interna. Não resolve tudo, claro. Resultado é construído dentro de campo, e desempenhos como o do jogo contra o Fluminense são responsabilidade coletiva.
Mas futebol não acontece no vácuo. Problemas acumulados, ruídos internos e instabilidade institucional, ainda que indiretamente, acabam respingando no gramado. Quando se somam, uma hora a conta chega.
Acredito que a Emily seja uma pessoa que pode ajudar nessas questões, brigando e não deixando que esses problemas interfiram no trabalho dentro de campo. A gente viu algumas entrevistas depois da saída do Piccinato, com a Erika falando algumas coisas, e eu acho que isso, querendo ou não, ainda que não de forma indireta, acaba influenciando.
Emily chega com pulso firme. Se será suficiente para recolocar o Corinthians no trilho das grandes conquistas, só o tempo dirá. Mas reduzi-la ao rótulo de “retranqueira” talvez seja simplificar demais uma treinadora que, até aqui, quase sempre precisou fazer muito com pouco.
Agora, pela primeira vez, ela tem muito nas mãos.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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