Quase Tm
No Brasil, há um tribunal que nunca fecha. Não tem toga, não tem juiz, não tem apelação. Funciona em estúdios iluminados, redações apressadas e telas de celular. Ali, o veredito nasce antes do fato. E o réu da semana atende por um nome que todos conhecem: Corinthians.
O curioso — e aqui mora a delinquência intelectual — é que a sentença já vem pronta, mas a conta não fecha. Nunca fecha. O sujeito comum, aquele que pega ônibus lotado e faz milagre com o salário, olha os números e estranha. Não precisa ser economista, nem gênio da matemática. Basta saber somar.
Em dois anos, o Corinthians gastou 1,8 milhão de reais. Do outro lado da rua, quase como um vizinho rico que não gosta de falar de dinheiro, o Palmeiras despejou 815 milhões. E o Flamengo, com ares de quem nunca perde o apetite, gastou 687 milhões. A diferença não é detalhe. É abismo. É coisa de outro planeta.
Mas na televisão, no rádio e nas redes, o tratamento é o mesmo. O mesmo tom de cobrança, a mesma cara de reprovação, o mesmo discurso indignado. Como se três homens chegassem ao restaurante, um pedisse pão com manteiga e os outros dois banquete completo — e, no fim, a bronca caísse igual nos três.
O Palmeiras gastou 45.177% a mais que o Corinthians. O Flamengo, 38.177% a mais. Repito, porque parece piada: quarenta e cinco mil por cento. Trinta e oito mil por cento. Não é diferença pequena. É outra realidade. É outro campeonato dentro do campeonato.
E ainda assim, cobram do Corinthians o mesmo desempenho, a mesma regularidade, o mesmo brilho. Querem que o time corra como se tivesse o mesmo combustível. É como exigir que um carro popular acompanhe um carro de corrida em plena reta. No fim, quando o popular perde, alguém grita: “Faltou vontade”.
Não faltou vontade. Faltou dinheiro.
Mas há um detalhe ainda mais curioso. Essa mesma imprensa, que fecha os olhos para a disparidade de investimento, tem uma memória seletiva. Não quer ver números, não quer ver dinheiro — desde que esses números não sirvam para acusar. Porque, todos os dias, sem falhar, cita a dívida astronômica do clube. Todos os dias lembra a incompetência da diretoria. Todos os dias joga na mesa o salário de Memphis Depay, como se fosse prova final de um crime.
É um comportamento estranho. O dinheiro só existe quando convém ao discurso. Quando serve para condenar, ele aparece com lupa, em letras grandes. Quando serve para explicar, desaparece como mágica. Some. Evapora. Vira silêncio.
E o torcedor, coitado, entra nesse teatro sem perceber o roteiro. Ele repete o que escuta, ecoa o que lê, compartilha o que sente. E, no meio disso, vira também juiz. Aponta o dedo, cobra resultado, exige vitória. Sem perceber que está pedindo o impossível.
Há uma certa crueldade nisso tudo. Não a crueldade escancarada, violenta, mas aquela silenciosa, cotidiana, que se repete até virar hábito. A imprensa, que deveria organizar o pensamento, embaralha. Em vez de esclarecer, confunde. Em vez de comparar com justiça, iguala o que nunca foi igual.
E aqui não se trata de defender diretoria, nem de absolver erro. O Corinthians tem problemas. Tem decisões questionáveis, tem escolhas ruins, tem contas que assustam. Mas isso não muda o fato central: não se pode exigir desempenho idêntico de quem vive realidades diferentes.
O Flamengo tem a maior folha de pagamento. O Palmeiras, a segunda. O Corinthians, a terceira. Até nisso há diferença. Não é só investimento em contratação, é também capacidade de manter elenco, de rodar time, de suportar lesões, de disputar campeonatos paralelos sem desmanchar a estrutura.
Mas, na narrativa pronta, tudo vira uma coisa só. Tudo vira “futebol é dentro de campo”. Como se o campo fosse um lugar isolado do mundo. Como se dinheiro não pagasse salário, não trouxesse jogador, não sustentasse projeto. Como se o jogo começasse no apito inicial e não muito antes, no escritório, na conta bancária, na negociação silenciosa.
Existe uma certa preguiça intelectual nisso. É mais fácil igualar do que explicar. É mais simples cobrar do que contextualizar. Dá menos trabalho transformar tudo em drama do que admitir que há lógica, estrutura e diferença concreta por trás dos resultados.
E assim seguimos. O Corinthians apanha quando perde, apanha quando empata, apanha até quando ganha. Porque a cobrança não é sobre o jogo. É sobre uma expectativa que não corresponde à realidade.
Enquanto isso, os clubes mais ricos seguem com suas engrenagens bem lubrificadas. Erram também, claro. Perdem jogos, tropeçam, decepcionam. Mas têm margem. Têm gordura. Têm tempo para corrigir. O Corinthians não tem esse luxo.
E talvez seja isso que incomode tanto. O contraste. A dificuldade de aceitar que o futebol, tão vendido como paixão pura, é também um negócio frio, calculado, desigual. Há quem prefira ignorar essa parte. É mais confortável.
Mas o sujeito comum, aquele do ônibus lotado, percebe. Ele pode não usar termos difíceis, não falar bonito, não escrever artigo. Mas sente quando algo está fora do lugar. E aqui está.
Cobrar é justo. Sempre foi. Sempre será. O problema não é cobrar. O problema é cobrar errado. É cobrar igual o que nunca foi igual. É transformar diferença em detalhe e detalhe em escândalo.
No fim, sobra uma pergunta que ninguém responde: por que o Corinthians é cobrado como se fosse Flamengo ou Palmeiras?
Talvez porque seja mais fácil. Talvez porque dê mais audiência. Talvez porque, no fundo, ninguém queira encarar os números de frente.
Ou talvez porque, neste tribunal sem juiz, a verdade seja apenas um detalhe incômodo — e detalhes, como sabemos, raramente dão manchete.
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