O que Yuri Alberto e Hugo Souza têm em comum?
Opinião de Beatriz Maineti
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Yuri Alberto em ação diante do Vitória pelo Brasileiro
Foto: Rodrigo Coca / Agência Corinthians
Tarde de sábado quente em Salvador. No Barradão, o Corinthians tentava segurar a pressão de um Vitória que, dentro de casa, tentava esquecer a zona de rebaixamento e começar a sonhar, quem sabe, com uma vaga na pré-Libertadores. Até que, ainda nos minutos iniciais, Hugo Souza domina mal um recuo de bola, chuta o chão e vê a bola correr. Ela sobra para Alerrandro, camisa 9 dos baianos, que abre o placar.
Hugo Souza, aliás, ficou marcado por lances como este em sua época de Flamengo. Jovem e inexperiente, o goleiro teve erros graves que tiraram da equipe carioca vitórias importantíssimas. No Maracanã, passou a ser vaiado toda vez que tocava na bola. Foi relegado a terceiro goleiro e, em seguida, emprestado a um clube de baixa expressão em Portugal.
Foi nesse momento que o goleiro, atualmente com 25 anos de idade, entendeu que era preciso se cuidar, e isso tem pouquíssimo a ver com a parte física. Hugo foi atrás de ajuda psicológica para se reconstruir mentalmente e, só então, poder se reencontrar embaixo das traves. Foi então que ele percebeu a importância de cuidar da sua cabeça para poder ser tudo aquilo que ele sabia, dentro de si, que poderia se tornar. Quando foi apresentado no Timão, falou sobre isso, e disse que o trabalho de saúde mental mudou sua carreira.
“Não teve um episódio específico ou concreto, mas eu estava num momento em que eu via toda minha qualidade daquilo que construí, desde o momento da estreia, distante de mim. Não era o Hugo, aquele atleta, eu sei do meu potencial. Foi onde eu entendi o que eu precisava fazer. A parte mental ia fazer eu voltar ao melhor nível que eu poderia desempenhar. A gente tem noção do que quer, planos, metas para a carreira, mas quando alinha o que precisa, podemos chegar até mais alto do que planeja”, disse o goleiro em entrevista.
O trabalho mental de Hugo Souza mostrou seu valor ainda durante os 90 minutos contra o Vitória. No começo da segunda etapa, quando o jogo já estava em 1 a 1, o adversário encontrou espaço pela esquerda e, após um cruzamento rasteiro, Gustavo Mosquito (aquele mesmo, o ex-Corinthians) chutou à queima-roupa. O goleiro não titubeou. Fez uma defesa primordial e impediu a virada do time da casa.
Falando no empate conquistado, ele saiu dos pés de Yuri Alberto. Matheus Bidu cobra lateral no campo de defesa e aciona Félix Torres, que, rapidamente, coloca André Carrillo no jogo. O peruano achou Memphis Depay ainda na metade defensiva do campo e o atacante conduziu a jogada até o ataque. O camisa 94 dá um bom drible em Luan para limpar a jogada e acha Rodrigo Garro sozinho. O meia dá um passe rápido para o camisa 9, que faz o facão e fica de frente para o gol.
Há poucos meses, esse lance faria o corinthiano fechar os olhos de frustração. Yuri Alberto, que chegou ao Corinthians em agosto de 2022 com status de solução e foi fundamental na campanha daquele ano, vivia há mais de um ano de uma fase horripilante. O jogador sofria com uma drástica queda técnica e parecia, apesar do esforço contínuo, estar se perdendo dentro de campo.
Atualmente, a fase mudou, mas isso só foi possível por causa da Rosana, psicóloga que acompanha o camisa 9 do Timão. Após a vitória sobre o Palmeiras na última segunda-feira, Yuri Alberto fez questão de agradecê-la nominalmente e ressaltou a importância do trabalho mental para conseguir lidar com a pressão e traduzir seu esforço em resultado.
“Quando comecei essa conversa com meu pai, ele tocou nesse assunto e, para nós, jogadores, quando se fala de terapeuta, é ‘eu não sou louco, não preciso disso’. Mas, cara, é importante. É muito bom. Fisicamente estava muito bem, tecnicamente nem tanto, falhava algumas vezes, e mentalmente estava ferrado. Ela (a terapeuta) me ajudou muito. Tem me ajudado bastante. Creio que vou aumentar mais os números nessa temporada e ajudar ainda mais o meu time”, contou Yuri Alberto ao “Boleiragem”, programa do SporTV.
Em novembro de 2024, Yuri Alberto tem 26 gols e está a quatro de igualar Pedro, do Flamengo, que tem 30 na temporada. No Brasileirão, está em terceiro lugar entre os artilheiros da competição, empatado com Hulk (Atlético-MG), Luciano (São Paulo) e Alerrandro (Vitória), com oito tentos. Já pelo Corinthians, o atacante já faz a melhor temporada entre os atacantes desde 2017, quando Jô foi às redes 25 vezes.
A saúde mental é um importante tópico mundial e precisa ser tratada com a seriedade que merece. No futebol, se torna ainda mais gritante na era das redes sociais, onde não existe privacidade garantida e quando todo mundo fala o que quer sempre que quer. Como profissionais, os jogadores se expõem à paixão de milhões de torcedores, mas acabam cobrados publicamente enquanto pessoas.
O tratamento adequado mudou a vida de dois jogadores jovens e muito promissores do futebol brasileiro. Impediu que eles se perdessem nos próprios erros ou até nas próprias glórias, como acontece com muitos que não conseguem lidar com a fama. Hugo Souza e Yuri Alberto são só dois exemplos entre tantos, mas o assunto não pode morrer em dois casos de sucesso. O futebol precisa da saúde mental!
Aliás, todos precisam. Cuidar da cabeça é o primeiro passo para viver uma vida mais plena. Por isso, você que está lendo, se cuide! Procure ajuda. Nenhum de nós está sozinho!
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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