Renato Augusto, meus filhos ouvirão falar de você
Opinião de Beatriz Maineti
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Renato Augusto se transformou em um exemplo de respeito e ética esportiva
Foto: Jhony Inácio / Meu Timão
Eu tenho 27 anos. Não vi Rincón, Marcelinho, Neto, Basílio, Luizinho ou Sócrates com a camisa do Corinthians. Meu encantamento por esses nomes dentro de campo veio das histórias que cresci ouvindo do meu pai e de velhos vídeos que assisti ao longo dos anos. Quem eu vi e vivenciei com a camisa do meu time do coração foi Renato Augusto. O camisa 8 que pintava com a bola no pé, dono de um chute poderoso e de um respeito invejável.
Pela idade, dá para saber que eu sou da “geração Neymar”, aquela que se acostumou com o futebol plástico, cheio de dribles e de malabarismos do individualista jogador revelado pelo rival da Vila Belmiro. E não me entendam mal, no auge dos meus 10, 11 anos, eu achava que o futebol deveria ter mais do que ele demonstrava.
Ao mesmo tempo em que eu via os dribles pela TV, porém, ouvia meu avô, o maior entendedor de futebol que conheci, repetir em alto e bom som: “o futebol é coletivo. Nenhum jogador faz nada sozinho”. A frase ficou comigo e eu comecei a analisar o esporte por essa perspectiva.
Foi por isso que, quando Renato Augusto chegou ao Parque São Jorge, ainda em 2013, eu não conseguia tirar os olhos dele dentro de campo. O cara tinha uma visão de jogo única, um estilo que impulsionava qualquer um que corresse junto com ele no gramado. Era como se aquele futebol, coletivo e cooperativo que o meu avô adorava, se materializasse no movimento de pescoço que encontrava qualquer um de uma ponta a outra do riscado.
Entre uma lesão e outra, a influência de Renato Augusto no futebol praticado pelo Corinthians ficava mais gritante. O jogo pedia por ele, pela velocidade e pela dinâmica que ele dava em cada movimentação. Mas o camisa 8 era mais do que isso - sempre foi.
Mais do que suas habilidades com a bola no pé, Renato era uma lição constante sobre respeito. Seus problemas físicos fizeram com que sua carreira tomasse um rumo diferente daquele que ele programou, mas sua chegada no Corinthians serviu para demonstrar que sua vida era pautada por uma ética profissional irretocável e transformá-lo na epítome do que é “ter o coração na ponta da chuteira”.
O Sport Club Corinthians Paulista abriu as portas para um jovem meia que sofria com problemas no joelho há anos. Muitos diziam que o investimento seria infundado, que Renato não conseguiria mais entregar um futebol de alto rendimento porque seu físico havia sido comprometido. O clube, porém, não ouviu. Apostou que a pessoa ia muito além dos problemas e deu tempo para que ele pudesse voltar a ser o que um dia foi.
Esse tempo, esse cuidado, ficaram marcados dentro de um coração que se comprometeu a bater pelo Corinthians. Eles se transformaram em gratidão no peito de quem se sentiu abraçado e, em resposta, abraçou de volta. Renato Augusto viveu o Corinthians, sua torcida e sua história na pele, e nunca escondeu o que isso significava para ele.
Não dá para ignorar o amor que ele sentia pela torcida. Este era palpável! A emoção nos seus olhos quando os fãs gritavam seu nome no estádio fazia até marmanjo ficar com os olhos marejados. Mas amar os torcedores era fácil! Nós o amávamos de volta. Renato Augusto aprendeu a amar o Sport Club Corinthians como aqueles que o aclamavam.
Entre suas duas passagens pelo clube, ele defendeu o Beijin Guoan, da China, a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2018, e, após o fim de seu ciclo no Parque São Jorge, o Fluminense. Em todos os lugares, manteve sua tradicional ética sem nunca esconder, fugir ou ressentir seu coração preto e branco. Renato Augusto se tornou um dos nossos sem jamais abrir mão daquilo que poderia oferecer aos outros.
Foi o Renato Augusto quem deu parâmetro para o futebol que eu, ainda adolescente, aprendi a apreciar. Ídolo é subjetivo, cada um tem o seu, mas ele faz parte da minha seleta lista. E vai ser sobre ele que eu vou falar para os meus filhos quando eles tiverem idade para entender o que significa ser um futebolista.
Vou falar dos gols, como aquele marcado em sua reestreia que fez a Neo Química Arena chorar, ou o segundo feito diante do São Paulo na semifinal da Copa do Brasil de 2023 que gerou uma das mais genuínas declarações de amor aos nossos torcedores. Claro, eles ouvirão sobre as assistências, os passes, os dribles. Mas ouvirão ainda mais sobre o respeito à torcida, à instituição e sobre a ética esportiva de um homem que viveu o futebol no seu mais puro espírito.
Renato, você deixou sua marca na torcida corinthiana e no futebol. Obrigada, Rei. A gente te ama, c#$%&@!
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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