O crime de torcer pelo Corinthians
Opinião de Heloisa Durand
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Torcedores detidos pelas autoridades policiais nesta quarta-feira, no Castelão.
Foto: Vitor Chicarolli / Meu Timão
Na noite da última terça-feira, no Castelão, Ceará e Corinthians jogaram pelo Campeonato Brasileiro. Mas o verdadeiro confronto aconteceu fora das quatro linhas. O que deveria ser apenas mais um capítulo da luta por pontos virou mais um episódio da luta por respeito, dessa vez, travado nas arquibancadas, com sinalizadores, vozes e repressão.
Durante o jogo, torcedores do Corinthians acenderam sinalizadores em protesto contra os preços abusivos dos ingressos: R$ 250 para o setor visitante. Um valor escandaloso, inacessível para boa parte da torcida que atravessa o país atrás do time, o time que carrega no peito o nome do povo, mas que, na prática, é expulso dos estádios por um futebol cada vez mais elitista.
O protesto foi legítimo. A resposta, desproporcional. Trinta torcedores foram detidos pela Polícia. Cinco deles por posse de entorpecentes. Os outros 25? Por conta dos sinalizadores. Por fumaça. Pela forma como decidiram protestar. Um símbolo da arquibancada, transformado em justificativa para a criminalização.
A incoerência não para por aí. O Corinthians foi o único clube da Série A a jogar com portões fechados por cantos homofóbicos, algo que, infelizmente, acontece em estádios de todo o país, mas raramente é punido. Se for o Corinthians, a régua é outra.
Basta lembrar também da final do Paulistão. A festa da torcida após a conquista sobre o maior rival foi histórica: sinalizadores, cantos, ruas tomadas. Uma celebração linda e pacífica, que três meses depois ainda rende punições às torcidas organizadas. Festa vira infração. Sinalizador vira caso de polícia. Fumaça vira crime. Desde que seja o Corinthians.
A verdade é simples e dolorosa: ninguém se importa com o torcedor. E menos ainda com o torcedor corinthiano. O futebol que se orgulha de ser do povo, age como se preferisse o silêncio. Desde que o ingresso seja pago e a câmera pegue bem, todo o resto é descartável.
A arquibancada, no entanto, segue firme. Faz barulho, solta fumaça, protesta. Porque precisa. Porque se não for assim, ninguém ouve. E é justamente isso que incomoda os que estão no poder: que o Corinthians ainda tenha um povo disposto a lutar, mesmo que, no fim, a luta seja contra quem deveria protegê-lo.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
