E se colocarmos estrangeiros nos lugares de Alessandro Nunes e Roberto de Andrade?
Opinião de Jorge Freitas
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Coletiva de imprensa Roberto de Andrade e Alessandro Nunes
Foto: Felipe Szpak / Agência Corinthians
O Meu Timão noticiou nesta quarta-feira que o Corinthians ainda tem dívidas a pagar com treinadores que passaram pelo clube nos anos de 2018 e 2019. Com Fábio Carille, por sua segunda passagem, cerca de R$ 8 milhões, enquanto por Tiago Nunes ainda há uma parcela da multa rescisória, cujo total era de R$ 1,5 milhão na época da rescisão.
Quebras de contrato são frequentes no mundo do futebol e o Timão não é, certamente, a única equipe que ainda paga por dois, três ou até mais treinadores simultaneamente. Recentemente, vi, em uma matéria de novembro de 2021, que o Santos ainda paga cerca de R$ 1 milhão mensais para sete treinadores que passaram pelo clube nos últimos anos.
Dentre os nomes na caderneta de credores do rival, constavam ainda os estrangeiros Ariel Holan e Jesualdo Ferreira, com passagens rápidas pelo clube, mas que deixaram dívidas de atrasar a vida de qualquer instituição que queira ser competitiva.
Refiro-me ao Santos para entrar no assunto mais comentado sobre o Corinthians desde que Sylvinho, que também tem um salário de R$ 280 mil a receber pela rescisão de seu contrato, foi demitido. Isto é a contratação de um novo nome para comandar o Timão e levá-lo de volta ao caminho dos títulos, já que o último alcançado foi há quase três anos.
O Brasil do futebol possui duas características suficientemente arrogantes que fazem com que o esporte fique cada vez mais atrasado em relação aos concorrentes, principalmente os europeus. A primeira dela é a ideia de que aqui é o país do futebol e que não precisamos aprender com ninguém, o que já foi derrubado pelas passagens de Jorge Jesus e Abel Ferreira, treinadores campeões das últimas três Libertadores da América simplesmente por estudarem mais futebol que seus rivais.
A outra característica problemática é a incrível incapacidade dos gestores de enxergarem além de um palmo de seus próprios olhos. Quando surgiu uma nova leva de treinadores jovens e a dicotomia com os veteranos se escancarou, parecia que a idade era a característica fundamental para que um treinador fizesse sucesso quando assumisse um novo clube. Alguns anos depois, poucos nos lembramos de quais jovens obtiveram algum resultado satisfatório, a destacar o próprio Tiago Nunes que, desde sua saída do Athletico, busca algum trabalho de sucesso pelo Brasil.
Logo depois, a onda era treinadores estrangeiros, mesmo com tamanha resistência devido ao motivo citado anteriormente neste texto. Se Jorge Jesus deu certo, ficou óbvio para os cartolas que bastaria o profissional ter sotaque português ou hablar español para que seu clube voltasse a ser campeão aqui no Brasil. Vieram Ariel, Jesualdo, Sá Pinto, Domènec Torrent, Miguel Angel Ramirez, Hernán Crespo, além de vários outros que se foram sem deixarem saudades, mas com o bolso cheio ou a se encher, dependendo do acordo feito com o clube contratante.
Curioso é que pouca gente pensou que anteriormente a JJ vieram (para citar alguns) Ricardo Gareca, Rueda, Diego Aguirre, Daniel Passarela, também sem sucesso ao Palmeiras, Flamengo, Internacional/São Paulo e Corinthians, respectivamente.
Dessa vez é a hora do Timão definir que quer um técnico estrangeiro, como se isso fosse a solução de todos os problemas do clube.
No entanto, o que os cartolas, e aqui falo especificamente dos presidentes, não conseguem enxergar é que, atualmente, há estrangeiros capazes de modernizar o clube em várias funções, não somente dentro da área técnica, tratando exclusivamente sobre futebol. Está claro que o futebol europeu somente começou a evoluir dentro de campo após uma reorganização fora dele, com profissionais capacitados para aumentar receita, diminuir custos, evoluir o marketing, modernizar os centros de inteligência e fazer escolhas certas nas definições de comissão técnica e elenco de jogadores.
Então por que ainda aqui nos prendemos a gestores antiquados, que não sabem conduzir o futebol, contratam técnicos por loteria e rezam para que o resultado seja o correto? O que pode garantir o sucesso do novo treinador se o futebol seguirá conduzido por profissionais como Alessandro Nunes, cuja carreira dentro de campo é um apêndice do sucesso de Cássio, e Roberto de Andrade?
Nada contra a pessoa do ex-lateral, que inclusive faz parte dos meu 11 da história do Timão por ter levantado os troféus da Libertadores e do segundo Mundial, mas em termos de gestão, não me lembro de nada que o gabarite a ser gerente de futebol do clube mais valioso da América do Sul. Alguém sabe?
Por que os presidentes insistem em assegurar amigos de confiança nos cargos de gerência como se o futebol dependesse apenas do treinador para dar certo dentro de campo? Por que não buscar profissionais que fizeram clubes intermediários da Inglaterra apresentarem receitas maiores que vários grandes clubes da América do Sul? Por que não ir à Alemanha e trazer alguém que entenda como seus clubes evoluem a cada ano e sua seleção está sempre entre as melhores?
Se queremos modernizar o futebol e evoluir dentro de campo, precisamos com urgência sair do novo senso de comum de que treinadores europeus farão sucesso simplesmente por atravessarem fronteiras.
É claro que há chance de dar certo, mas está comprovado que há muitos mais casos de insucessos do que de conquistas nos últimos três anos, pois de nada adianta trazer alguém que entenda de futebol dentro de campo, enquanto fora o centro de inteligência é sucateado e os profissionais se mantém em cargos importantes muito mais por amizade do que competência.
Se há, no mundo todo, vários profissionais melhores que Sylvinho, é claro que existem também melhores que Alessandro e Roberto.
A recente dívida do Corinthians com ex-treinadores mostra muito mais do que parece. Tende a ser maior enquanto o modelo de gestão do futebol seguir despreparado e ultrapassado.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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