Não há quem defenda o Corinthians na grande imprensa
Opinião de Roberto Piccelli
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Gabriel Paulista atuando com o novo uniforme do Corinthians
Foto: Jhony Inácio / Meu Timão
A neutralidade não está na moda. Seria ideal que as pessoas ainda valorizassem a imparcialidade, mas não é mais essa a regra, especialmente na internet. Todo mundo sabe, ao ler qualquer artigo de política ou de esporte, para que lado pende a caneta de quem escreveu.
Considerem a repercussão do clássico de ontem. Falou-se de tudo, até da chuva de papel da torcida e dos severos riscos causados pelos óculos de sol jogados contra os jogadores do São Paulo (que, diga-se, provocavam a torcida mais uma vez em Itaquera). Com poucas e honrosas exceções, ninguém mencionou a falta absurda de critério da arbitragem, que deixou de expulsar um jogador do São Paulo por gesto nitidamente obsceno sob a inovadora justificativa de que a mão não havia encostado na genitália. Pensem vocês se isso faz sentido.
Não falo aqui das personagens de palco que todos conhecemos. É claro que nos programas descontraídos da televisão, há provocações para todos os lados, mas todos sabemos do que se trata. O Milton Neves fez carreira tirando onda do Corinthians, mas, goste-se dele ou não, deixava nítido o tom de entretenimento.
Falo, isso sim, da cobertura da imprensa escrita, dos jornalistas que se apresentam com suposta seriedade. Nesse universo, publica-se noite e dia a opinião de torcedores que se dizem jornalistas, mas que todo mundo sabe a que servem. Há o mais notório deles: um mal-humorado jornalista em cruzada moral permanente contra o Corinthians — e, verdade seja dita, contra todos os times paulistas. Se o Flamengo ganha, rapidamente publica um texto de exaltação. Se perde, prefere o silêncio. Se o Corinthians vence, o assunto são as ressalvas: a torcida que vaiou depois do apito, a institucionalidade em frangalhos ou, claro, o endividamento crônico.
Ah, o endividamento! A situação financeira do Corinthians é uma lástima, e o atraso de salários é inadmissível. Que ninguém coloque isso em dúvida. Ainda assim, será que a torcida que mais frequenta estádio no Brasil não merece uma vitória ou outra em meio a todo esse lamaçal? É imoral ser feliz com dívidas?
Para alguns jornalistas de plantão, aparentemente sim. Provam-se grandes especialistas em finanças, quando é para falar do Corinthians. Invocam nossos credores para condenar a atrocidade de termos um time competitivo. O justo seria perdermos todas, de preferência com arquibancada vazia. Sempre estão de prontidão para tranquilizar os corações rivais: nossas joias serão vendidas em breve e não teremos dinheiro para repor as saídas.
Erros de arbitragem contra nós raramente são assunto. Qualquer outro tema entra na frente. Experimente o juiz, porém, interpretar um lance duvidoso a nosso favor e terá as manchetes.
Não se pode deixar de mencionar aqui também a grande reserva de imparcialidade da imprensa: os ilustres jornalistas corinthianos que todos conhecemos, os últimos dos imparciais. Deles não se ouve uma palavra contra os desmandos da arbitragem. Ninguém notou, por exemplo, que o Corinthians é o clube mais denunciado ao STJD neste ano, e de muito longe? Ou que o Corinthians figura há algum tempo no topo do ranking de pênaltis contrários do Campeonato Brasileiro? Os pouquíssimos que realmente defendem o clube desaparecem dos grandes portais. Por onde anda Vitor Guedes, o Vitão?
Tudo isso, é claro, tem como raiz a nossa desorganização administrativa. Em meio aos frequentes arranca-rabos da política institucional, não temos como traçar estratégias de médio prazo, como seria um plano de relacionamento com a imprensa. Assim, não se veem nem sequer notas de repúdio contra essa cobertura vergonhosa. A omissão de cima, porém, não nos obriga à omissão de baixo. Cabe à torcida se posicionar, e alto.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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