Agora basta o jogador querer sair?
Opinião de Roberto Piccelli
21 mil visualizações 86 comentários Comunicar erro

Segundo a diretoria, Cassini foi vendido porque 'ele quis'.
Foto: Agencia Corinthians | Rodrigo Coca
Em meio a essa enxurrada recente de boatos sobre negociações de jogadores do Corinthians, algumas bobagens têm sido ditas. Então acho que é hora de esclarecer qual é afinal o papel da vontade do jogador para que uma transferência seja concretizada.
Jogadores de futebol, assim como quaisquer outros trabalhadores, não são obrigados a trabalhar onde não querem. Assim, se o Corinthians estiver interessado em “vender” o Elias para o Flamengo, teoricamente, ele só vai se quiser. Afinal, atletas não são mercadorias.
Claro que, na prática, os dirigentes, se estão interessados em se livrar de algum jogador caro ou problemático, ou ansiosos para fazer caixa, pressionam o jogador para assinar uma transferência. Mesmo que o jogador queira permanecer, ele ouve todo tipo de chantagens e apelos para que aceite sair. Fica difícil não ceder. Há boatos de que isso aconteceu em algumas vendas famosas do Corinthians. Em última análise, porém, é verdade que eles não saem se não quiserem. O Elias, por exemplo, não quis sair.
Agora, e o inverso? Se o jogador quiser romper um contrato e se transferir, ele pode simplesmente sair, mesmo sem o consentimento do clube a que estiver vinculado?
É evidente que não. Enquanto ele tiver um contrato em vigor com o clube, esse contrato só pode ser rescindido em duas hipóteses: (i) acordo entre jogador e clube, ou (ii) pagamento da multa.
Normalmente, a multa é fixada no contrato em um alto patamar, mas sua redução é negociável. Assim, o clube interessado em contar com um jogador de outro toma a iniciativa de discutir um abatimento no valor dessa multa para viabilizar a transferência. É assim que se “compra” um jogador: pagando o valor da multa ou, como é mais comum, um meio-termo negociado com o ex-clube para a rescisão do antigo contrato.
Não é de hoje, porém, que a diretoria do Corinthians tem assumido a postura de justificar as saídas dos seus atletas com a “vontade do jogador”. Não é minha intenção discutir aqui se é ou não verdade. Não duvido de que seja só um discurso para fazer caixa e tornar o jogador boi de piranha.
Cinismo ou não, vamos supor que seja verdade; que o Alex, o Marquinhos, o Paulinho, o Cassini, todos eles tenham insistido para sair. A diretoria tem agido certo em se conformar com a vontade do atleta e não exigir o pagamento integral da multa - ou ao menos não negociar uma redução para um valor minimamente razoável? É claro que uma permanência forçada pode não ser o melhor dos mundos, mas será que, até para servir de exemplo para os demais atletas, a diretoria não teria que ser mais firme?
Contratos foram feitos para serem cumpridos, e a diretoria, na melhor das hipóteses, assume a própria frouxidão ao deixar sair um jogador que tem contrato em vigor sem que o clube seja compensado em valores dignos. Principalmente ao declarar publicamente que "tentou" a permanência dele.
Se cada jogador do elenco que vier a receber uma proposta para ganhar mais na Europa for liberado por dinheiro de pinga, simplesmente por ser essa a “vontade do atleta”, talvez seja melhor abrir mão de celebrar qualquer contrato de mais de um ano. Afinal, qual é a vantagem de um vínculo longo, se a obrigação só vale para um lado? Ficar obrigado a pagar o jogador por anos, mesmo que ele não dê retorno?
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
Avalie esta coluna
Veja mais posts do Roberto Piccelli
-
Não há quem defenda o Corinthians na grande imprensa
-
O Corinthians precisa de uma postura mais firme sobre a arbitragem
-
Saiba como você pode participar das decisões do clube e ajudar a democratizá-lo
-
O presidente tem uma opção no estatuto para evitar o impeachment e para muito mais
-
Ignorar a vontade do sócio e do torcedor do Corinthians sem fundamento concreto não faz sentido
-
Uma torcida que não se cala
