O jogo como um todo: Cássio é culpado?
Opinião de Jorge Freitas
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Cássio leva mais chutes atualmente do que em seus melhores tempos
Foto: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians
Há algumas semanas fiz aqui uma coluna que criticava aqueles que enxergavam em Luan o único culpado por sua má fase. Ao contrário do que se pensa o senso comum, o futebol precisa ser visto como um conjunto em que as peças se encaixam para produzir mais, sendo que, quanto melhor o ajuste, mais eficiente se torna o time.
No entanto, dessa vez não vamos falar de Luan, mas sim de um jogador que já está consolidado como um dos maiores ídolos da história do Corinthians e responsável direto por quase todas nossas conquistas nessa década vitoriosa.
Cássio chegou ao Corinthians como uma incógnita. Com Júlio Cesar, então titular da meta, sempre sob contestação, o ex-gremista chegou sem tanto alarde e houve até quem criticasse a sua contratação, dizendo que o clube poderia fechar se não fosse capaz de formar um goleiro melhor que "este rapaz que vem da Holanda".
(Ah, como eu gostaria de ter gravado o comentarista explosivo do horário do almoço falando tais palavras em rede nacional).
Hoje, quase nove anos após a sua chegada, a cena pela qual passa no aeroporto é no mínimo incômoda. Não somente pela violência que representa o nível de nossa sociedade, seus problemas, suas mazelas e a despreocupação das autoridades em corrigi-la, mas também, menos importante dentre as coisas mais importantes, como a grande maioria dos torcedores são incapazes de entender, de fato, o que é esse esporte chamado futebol.
Cássio não se tornou histórico sozinho. À sua frente, esteve por anos um estilo de jogo extremamente defensivo, que o protegia e o permitia fazer poucas defesas, quase sempre decisivas. Quando víamos Jorge Henrique ou Romero marcando laterais, não havia apenas um sistema que impedisse a bola de chegar à zaga, mas sim um método de jogo que impedia que o goleiro fosse literalmente bombardeado.
A conta é simples. Se um goleiro não recebe nenhum chute a gol durante todo o jogo, o time não perde. Se leva poucos chutes e se for bom, dificilmente toma gol. Cássio esteve iluminado por anos, falhou, mas fez defesas que o colocaram no topo da história do clube porque era pouco acionado e, com isso, mantinha bom aproveitamento.
No entanto, é inegável que aquele Corinthians que o protegia acabou. Não há mais sistema de jogo que defenda o goleiro e o guarde apenas para fazer intervenções milagrosas. Atualmente, Cássio é acionado o tempo todo, mais que qualquer outro time no atual Campeonato Brasileiro.
É isso mesmo. De acordo com o site Whoscored.com, o Timão é o goleiro que mais sofre arremates neste Brasileirão, com incríveis 16,7 por jogo. Esses dados não significam que 100% dos arremates vão às mãos do nosso goleiro, mas sim que há um sistema extremamente falho que o deixa extremamente vulnerável.
É claro que o camisa número 12 está lá para pegar as bolas que passarem da defesa, mas não há santo que consiga evitar bombardeios em todos os jogos. Obviamente, algumas bolas são defensáveis e ele falhou nos gols contra o Botafogo e o São Paulo, mas há tantos chutes durante a partida que é inevitável que o adversário seja feliz como foram, por exemplo, Nenê, Nino Paraíba, Kalou e Brenner nos últimos jogos.
É questão de probabilidade.
Cássio parece viver sua pior temporada desde que chegou ao clube e não corresponde da forma que já fizera outrora. Mas culpá-lo exclusivamente é não entender de futebol, praxe na torcida brasileira, que personaliza os jogadores e os cobra diretamente, como se fossem responsáveis únicos pela forma que o time joga.
Resumidamente, se não há uma estrutura de jogo que segure a bola na frente, que não marque corretamente ou que não defenda a meta e evite arremate adversários, o maior penalizado certamente é o goleiro. Fosse Walter na meta, talvez evitasse algum dos gols tomados, mas poderia levar outros, tamanha a ameaça constante no gol corinthiano.
É o que Coelho precisa revisar. No melhor estilo Tite, vale remontar um time a partir da defesa, pois, sabemos bem, nas raras vezes em que a bola passar, Cássio estará lá para evitar o gol.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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