É preciso amar (e perdoar) como se não houvesse amanhã

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians. Ele está no Twitter como @Rafael_Castilho.

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É preciso amar (e perdoar) como se não houvesse amanhã

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É preciso amar (e perdoar) como se não houvesse amanhã

O Rincón jogou muito. O Rincón jogou muito, muito muito muito mesmo

Foto: MARIE HIPPENMEYER/AFP via Getty Images

Durante muitos anos guardei comigo uma espécie de mágoa do Rincón. Para ser mais preciso, vinte e dois anos de raiva.

Alguém um dia falou que a raiva é o amor virado do avesso. Não me parecia possível perdoar o Rincón. Por ocasião de seu falecimento trágico e precoce, estava pensando: perdoar de quê, exatamente?

Me pus a pensar. Seria raiva por ele ter ido jogar no Santos? Acho que não. Sequer daria tamanha importância para este acontecimento. Resolvi que minha mágoa se restringia ao fato de ele ter deixado o Corinthians, sendo tão amado por nós.

Sim, foi uma mágoa de amor traído, de desterro. Uma dor pelo abandono. É como uma pessoa que a gente ama, se inspira, idolatra, saísse pela porta de casa, sem nenhum motivo aparente e fosse embora para nunca mais voltar.

Quando soube do acidente que ocorreu com o Rincón, fiquei absolutamente consternado. E não imaginava que isso pudesse doer tanto. Descobri, da maneira mais fatídica, que ainda gostava muito do Rincón. Estava tudo aqui dentro de mim, cimentado, rebocado, impermeabilizado pela mágoa que permiti que se instalasse dentro de mim.

É como se um amigo de longa data, que por alguma razão se afastou de nossa vida, tivesse morrido e, subitamente, percebêssemos que não tivemos a chance de passar por cima de certas coisas e dizer o quanto gostávamos dele, o quanto o admirávamos.

Ficou algo no ar. Algo em suspenso. A Fiel vai ter que lidar com esse sentimento. Uma história inacabada é como um fio desencapado que pode dar um curto circuito repentinamente. Sim, Rincón saiu do Corinthians deixando sua história inacabada. Nunca soubemos direito como lidar com essa situação. Como disse, menos por ter ido para o Santos, mas muito mais porque, caso tivesse ficado pelo menos mais um ou dois anos no Corinthians, poderia ser hoje o maior – ou um dos maiores – ídolos de nossa história.

Se havia um jogador que olhávamos atuar dentro do campo e sabíamos que estávamos vendo ao vivo uma futura estátua no Parque São Jorge, esse alguém era o Rincón.

A gente realmente ficou sem entender o porquê de ele ter ido embora. Na época, dizia-se que era por conta do desentendimento com um diretor. Outros disseram que era uma questão financeira. Não sei.

Me intrigava o fato de que em seu último gol com a camisa do Corinthians, no jogo contra o Al Nassr, fazendo o gol que nos classificou para a final, ele apontava para o próprio ouvido, como se protestasse contra os xingamentos da torcida. Eu estava no estádio esse dia. Ninguém xingava o time, muito menos o Rincón que àquela altura era disparado o jogador mais respeitado pela torcida. Vendo a série documental do Michael Jordan, entendi que alguns atletas constroem um inimigo quase que ficcional para encontrarem motivação extraordinária em algumas situações. Não sei se os inimigos do Rincón eram íntimos, fantasmas internos ou se realmente havia gente lhe fazendo mal.

Só não compreendia mesmo como ele pôde jogar tanta coisa fora. Foi péssimo para o Corinthians e péssimo para ele também, pelo menos olhando de fora. Bom, a verdade é que digo essas coisas também para exorcizar os meus demônios. Para extravasar, jogar para fora isso tudo que ocorreu.

Ao saber de sua morte foi como se nenhuma dessas perguntas fizesse mais sentido. Ficou dentro de mim apenas a lembrança do jogador excepcional que foi o Rincón.

O Rincón jogou muito. O Rincón jogou muito, muito muito muito mesmo. Perdoem a expressão, mas o Rincón jogou para car***! O Rincón jogou demais com a camisa do Corinthians. Tive privilégio de ver desde o primeiro até seu último jogo como nossa camisa, naquele 14 de janeiro de 2000 no Maracanã. Ah, lembrei-me que houve uma volta depois.

Não me lembro de ter visto um jogo ruim do Rincón. Principalmente quando o Luxemburgo acertou sua posição. Quando começou a jogar como volante, o Freddy superou todas as expectativas.

Era como uma torre, uma fortaleza. Possuía uma técnica exuberante, uma habilidade fenomenal, uma inteligência incomum. Dominava todos os fundamentos do futebol. Para além de todas as qualidades com a bola no pé, Rincón era uma referência. Era como se fosse um super-herói. Sua estatura, sua força, sua valentia, sua liderança. A gente olhava o Freddy dentro de campo e era algo muito simbólico. Era como se ele sintetizasse o que pensávamos ser o ideal que imaginávamos para um jogador do Corinthians. A gente via o Rincón jogando, já em com uma idade em que todos consideravam à época como o “fim de carreira” e ele parecia impecável. Corria o jogo todo. Corria com inteligência. Não precisava desperdiçar energia. Mas, nunca esqueço, quando era preciso demonstrava mais energia do que qualquer jogador e não foram poucas as vezes que cobriu os zagueiros, o goleiro e salvou a bola na risca do gol.

As pessoas comentavam das cotoveladas do Rincón. Mas ele não fazia nenhum movimento de golpe. Era incrível essa jogada, ele fazia em todos os jogos. Recebia a bola no meio campo. Carregava. Acelerava rumo ao ataque para servir os atacantes com seu passe magistral. Quando percebia um adversário se aproximando ele mantinha a bola nos pés. Corria com a bola e o adversário o perseguia. Quando Rincón decidia que a perseguição já era suficiente, simplesmente ele freava. Como ele não tinha luz de freio, o adversário que corria atrás dele se chocava, como se tivesse batendo a cara no poste. O adversário caia quase desacordado. Depois vinha outro. Acontecia a mesma coisa. Era uma jogada muito maliciosa.

Era como se o Rincón fosse feito de titânio. Incrível um jogador tão forte ter morrido dessa forma.

O ano de 1999, até a conquista do mundial no início de 2000, foi o seu melhor período. Era um prazer imenso vê-lo jogar. Fez algumas das atuações mais incríveis que já assisti, desde que acompanho o Corinthians (e o futebol como um todo). Certamente, Rincón tem lugar garantido no Corinthians de todos os tempos. Não há quem possa montar um time de onze jogadores e não escalá-lo retumbantemente como titular.

Como disse, estava no Maracanã na conquista do nosso primeiro mundial. A felicidade que o Rincón me deu na vida não tenho como descrever. Fecho os olhos e me lembro, como se fosse ontem, dele levantando a taça. Vejo essa cena com todos os brilhos. Jamais esquecerei. Estou certo que levarei comigo essa imagem, mesmo depois que partir desse plano terreno.

E por falar nisso, fica para mim essa lição. A vida é muito rápida e breve para que nos orientemos pelas mágoas. Principalmente a mágoa de quem a gente ama e admira. Eu também já errei tanto nessa vida, como posso negar o meu perdão?

Quando minha alma corinthiana sair desse planeta, deixando esse corpo igualmente corinthiano, espero encontrar o Rincón vestindo a camisa do Corinthians. Lhe darei um abraço forte e estou certo que ele me dirá com aquela voz grave: VAI, CORINTHIANS!!!

Veja mais em: Ex-jogadores do Corinthians e Ídolos do Corinthians.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

Coluna do Rafael Castilho

Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians. Ele está no Twitter como @Rafael_Castilho.

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    Aldrei 432 comentários

    @aldrei.silva Apoiador em

    Rincon foi um monstro em campo...ele sabia usar sua imponência física para intimidar mesmo...o Felipe Mello, que algumas torcidas julgam ser um cara que bate..era uma Lessie perto dele...mas não pela agressividade, PELA ATITUDE, PELA técnica E PELA FORÇA, ERA UMA IMPOSIÇÃO COMPLETA...

    Obviamente que..assim como Ralf e PAULINHO...havia uma SIMBIOSE entre ele e o VAMPETA e um pouco com o RICARDINHO...ali era sacanagem... é só você, corinthiano new generation, imaginar esse trio no meio do Corinthians por 2,3 temporadas..com marcelinho, Edílson e Luizão...dida no gol..pena que foi MUITO POUCO TEMPO

    Disparado, o melhor time do Corinthians na história...faltou um técnico com gestão de grupo

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    Allyson 1072 comentários

    @allysonnogueira em

    A raiva que você sentiu pelo Rincon é a que eu sinto pelo Guerrero

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    Ednilson 2 comentários

    38º. @ednilson.valia1 em

    Reservo-me nesse texto a tristeza e nostalgia. Dida, Indio, Adilson, Fábio Luciano e Kleber; Rincón, Vampeta, Ricardinho e Marcelinho; Luizão e Edílson. Técnico Oswaldo de Oliveira.

    Ignorado pela elite, o povo(parte dele) tinha no Corinthians, não um time e sim um grito da periferia. O paulistano é alienado e vassalo do papo patronal:
    "SÃO PAULO, A LOCOMOTIVA DO BRASIL"

    Nunca foi o vagão, o condutor, o trabalhador da cidade de maior população do país continua sendo o combustível, precisamente o carvão, queimando e virando fumaça para aumentar a velocidade do enriquecimento do "Senhor Feudal" também conhecido por essas bandas como "chefe", "empresário" e "patrão".

    Como escutei de colegas, parentes, em conversas informais no transporte coletivo e confesso, envergonhadamente que repeti a ladainha: "Coitado do patrão, paga muito imposto". Prova maior da consciência idiotizante do "carvão" (trabalhador) que está sempre na labuta.

    O dia 14 de janeiro de 2000, finalmente pude dar o grito da periferia, não mudou nada na vida dos ricaços de sampa. Foi até bom, aumentou a produtividade de boa parte da população, que estava feliz no primeiro mês do século XXI.

    Na data citada no parágrafo acima, o Corinthians venceu o Vasco na final do primeiro mundial organizado pela Fifa. Gritei pós-jogo, pela madrugada enchi a cara, fui para o Parque São Jorge, sede do Timão na zona leste de São Paulo. Poucos jogadores foram até lá, comemorar com a torcida, mas o capitão foi, homenzarrão, preto, camisa oito, que honrou. Eu gritei para ele, que estava em cima de um carro de bombeiro e o capitão respondeu com os pulsos cerrados erguidos. Gosto de pensar que foi uma retribuição ao meu chamado. A sua morte aos 55 anos, em 13 de abril de 2022, também marcou a morte daquele grito que me libertou de algo, mas hoje, refletindo, só me fez lembrar das algemas que nunca saíram dos meus pulsos.

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    José 503 comentários

    37º. @jose.edvaldo.queirog em

    Caramba, eu vivi pra ver o melhor time!Eu tinha 21 anos nessa época, que saudade, jogadores que ainda jogavam por amor...O dinheiro não era tão importante como é hoje, a primeira história que eu me lembro de, que ali eu vi que já era dinheiro a falar mais alto foi o caso do Ricardinho, em um dia disse que só sairia do Corinthians pra jogar no exterior, no dia seguinte estava bwijando a camisa do São Paulo!Na minha opinião foi o Primeiro Mercenário, o restante antes dele, saiu por causa de torcida e dirigentes!

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    Igor 237 comentários

    36º. @igor.fer em

    Rincon e Vampeta foi a melhor dupla de volantes que eu vi jogar... Os dois jogava de cabeça erguida, sem se afobar, chegava junto em todas divida, tenho 2 certeza em relação ao Corinthians.. Nunca mais vou ver um lado esquerdo como foi com Kleber, Ricardinho e Gil e nunca mais vou ver 2 volantes como Vampeta e Rincon... Tive a oportunidade e alegria de ver esses timaços! E esses craques

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    Ramon 456 comentários

    35º. @ramon.santana4 em

    Eu era novo na época, tinha em torno de 9,10 anos, então não lembro muito de como foi sua saída e não me recordo de ter esta mágoa dele (ainda bem). Dele, tenho apenas as lembranças boas e você descreveu perfeitamente o que era o Rincón em campo para nós: a personificação de um super herói.

    Apesar de ser criança na época, lembro exatamente da cena dele levantando a taça e eu chorando na casa da minha vó de emoção, ajoelhado em frente a TV e gritando: 'Levanta a taça Negão! Tu e soda pra baralho! Tu merece essa [email protected]!'

    Igual ele, acho que nunca mais vamos ter, infelizmente.

    Nosso eterno camisa 8!

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    Roger 468 comentários

    34º. @roger.rocha.zl.sp em

    O torcedor precisa entender que o jogador é um profissional e que precisa pensar em sua carreira, obrigado Rincon.
    O Rincon participou do primeiro mundial e foi muitas vezes humilhado por nós Corinthianos, aconteceu o mesmo com o Gerreiro, tempo de reflexão.

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    Uildembergue 1551 comentários

    33º. @uildo em

    Raiva mesmo eu sinto é pelos vagabundos que botaram o Rincon e o Edílson pra fora do Timão.

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    Ailton 63 comentários

    32º. @ailton.targino1 em

    Rincón sempre mostrou caráter algo bem difícil no meio do futebol, e ele sempre representou a torcida em campo, a sua saída para o Santos ele justificou que a Diretoria na época não renovou o contrato do Batata que tinha quebrado a perna aí ele disse que não ficaria onde as pessoas eram desonestos. Compreendi perfeitamente mais ainda partindo do Freddy alguém com uma conduta muita correta.

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    Antonio 7 comentários

    31º. @antonio.jose.francov em

    Muito bom o texto. Como sempre. Lembro também que fiquei puto demais com a saída dele e fiquei sem entender. Quando ganhamos do Santos aquela semifinal de 2001 com gol de Ricardinho no último segundo, xingue muito o Rincon. Ele estava no Santos nessa época, pra descontar minha mágoa kkkk

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