A saúde financeira do Corinthians me preocupa
Opinião de Ana Paula Araújo
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Andrés Sanchez é o atual presidente do Corinthians
Foto: Danilo Fernandes/ Meu Timão
Nesta terça-feira, eu estava de folga, mas nem por isso deixei de acompanhar as notícias aqui do Meu Timão. Que a situação financeira do Corinthians não era boa eu já sabia, mas eu não imaginava que o endividamento e os gastos no primeiro semestre seriam tão altos.
A saúde financeira do Corinthians me preocupa. Como pode um clube de futebol continuar jogando em alto nível sem poder gastar? Ou gastar e ficar devendo ainda mais?
Falta detalhamento dos gastos
Olhando os documentos que são divulgados, sempre ficam dúvidas sobre o que é o quê.
- Serviços de terceiros
O que são exatamente "serviços de terceiros"? Em 2018, tiraram no ano todo R$ 21.094 milhões dos cofres e agora, tiram em só um semestre R$ 18.220 milhões. Por que em 2019 o gasto foi tão maior em apenas seis meses? E quais são esses serviços de forma mais específica?
Esse é só um exemplo sobre como falta transparência. Afinal, se você paga Fiel Torcedor, compra produtos oficiais do Corinthians, vai à Arena assistir aos jogos, você merece e deve saber com o que é gasto seu dinheiro.
Clube social
Eu não sou da turma que deseja separar clube social do futebol. Já até falei aqui em uma coluna sobre o Fiel Torcedor que o Corinthians deveria unificar social e sócio-torcedor. Eu sou daqueles que acreditam que, se bem explorado, o clube social tem uma capacidade enorme. Mas é fato que ele onera o orçamento e suga do futebol. Ele pode ser autossustentável.
No primeiro semestre, o clube social teve um déficit de R$ 26,5 milhões.
Você sabia que o Corinthians possui a maior arena coberta particular da cidade de São Paulo?
O que falta, na minha opinião, é tornar mais contemporâneo o clube social. Os mais saudosistas podem discordar, mas o mundo evoluiu e continua evoluindo.
Hoje, por exemplo, é viável pagar um mínimo de R$ 2.000 mil para ter acesso às dependências de um clube? Virou coisa comum em condomínios de baixo custo ter piscina, academia e outras variedades de entretenimento. Qual o diferencial do clube-social do Corinthians?
Ele é um recurso mal explorado. Tem potencial para ser um dos pontos turísticos mais badalados de São Paulo, porém, não é.
Como disse, separar ele do futebol é algo que sabe quando passará pela votação? Nunca, afinal quem vota é o sócio do clube e, infelizmente, isso não deve mudar tão cedo. Qual sócio em sã consciência vai votar para desvalorizar seu título?
Vendas de jogadores e salários
Não é segredo para ninguém que o Corinthians vende mal. A situação se agrava quando se vende muito e se recebe pouco quando comparado com outros clubes. Foi o que houve nesse primeiro semestre, o Corinthians vendeu mal e o valor arrecadado com negociação de atletas caiu em relação ao ano passado. Fica pior ainda quando se depende da venda de ativos para tentar equalizar valores de um ano ruim.
Em remuneração, o Corinthians gastou R$ 132 milhões.
Como já noticiado aqui, pelo Meu Timão, o clube tinha, em junho deste ano, 92 atletas sob contrato.
Parafraseando o meu colega Rodrigo Vessoni, são 92 salários só no elenco profissional. E muitos desses jogadores estão sob empréstimos com parte da remuneração garantida pelo Timão. Uma outra parte está alocada na polêmica equipe Sub-23.
Gastos maiores que as receitas
Aí na sua casa, você costuma gastar mais do que ganha? Se sim, certamente você faz dívidas com bancos, o que, no final, vai sair bem mais caro que pagar à vista ou planejar as despesas.
A premissa de gastar menos do que se ganha é básica para quem quer ter uma vida financeira saudável. Mas com clubes de futebol nem sempre funcional, como é o caso do Corinthians.
O principal fator alarmante é esse, gastos excessivamente acima dos ganhos. O déficit de social e futebol é de R$ 94,9 milhões.
Ainda há receitas a se somar. O Corinthians previa um superávit de 650 mil para este ano. Vamos aguardar, mas acho difícil alcançar a meta.
Patrocínios
Com a camisa sendo um verdadeiro abadá, o Corinthians teve receitas de patrocínios maiores que 2018. Mas é difícil isso acontecer tendo em vista que o clube passou um ano e meio sem patrocinador master? Não, obviamente.
Nesse ano a arrecadação no primeiro semestre foi de R$ 34,1 milhões, ano passado inteiro ficou na casa dos R$ 18 milhões.
O que ninguém sabe, porém, é quanto o clube vai receber com a discreta abertura de contas junto ao banco BMG.
Vale mais encher a camisa com patrocinadores ou valorizar o manto para que não precise vender até o espaço de dentro do uniforme? Não estou reclamando disso por enquanto, mas para vislumbrar um futuro financeiro mais sóbrio, esse seria um caminho natural. Valorizar o patrimônio.
Considerações finais
Tudo isso para chegar uma conclusão que acho que é quase unanimidade entre os torcedores: o Corinthians tem uma gestão amadora.
Como eu sei disso? Pelo aumento da dívida. O valor da dívida nunca deve ser causa de má gestão, pelo contrário, a má gestão é a causa do aumento da dívida.
O que pode ser feito?
A curto prazo? Gestão de despesas. Programar despesas que se encaixem dentro do orçamento. Gerir o que se gasta, de acordo com o que se recebe. Quem vai sofrer com isso no início? O futebol.
Mas contratar atletas deliberadamente e inflar o elenco com jogadores que não correspondem à altura dentro de campo, não é a solução. Pelo contrário e isso se prova no ano que tivemos. Um desempenho pífio dentro de campo. Vale mais contratar 20 jogadores médios ganhando pouco ou cinco pontuais, ganhando mais, com capacidade para serem titulares e trazem resultados positivos dentro das quatro linhas?
É incrível como discurso de que não há dinheiro para gastar não condiz com as despesas apresentadas. O problema não é o recurso escasso, mas sim a má utilização dele.
A longo prazo? Tornar o clube profissional. Contratar e remunerar profissionais capacitados de acordo com o cargo ocupado. É para o marketing? Que tenha formação para tal. É para o financeiro? Que tenha capacidade para isso. É para presidência? Idem!
Outra coisa que me irrita é ex-atleta acumulando cargo dentro do clube. Vamos ao exemplo mais recente: Emerson Sheik.
Dentro de campo, ídolo incontestável. Bom jogador e que, particularmente aqui, no Corinthians, foi decisivo. Mas fora das quatro linhas, em termos de gestão de pessoas, ele tinha capacidade para ocupar o cargo de coordenador de futebol?
É certo o jogador sair dizendo que aprendeu mais com um ano como dirigente do Corinthians do que com 20 anos como jogador? Olha, me desculpe, mas o Corinthians não é escola, exceto pela base, onde atletas devem aprender e não dirigentes.
Agora me diz, a conta chega para quem, Andrés?
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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