Sabotage e Corinthians: muito mais que uma collab
Opinião de Bruno Cassiano
5.0 mil visualizações 15 comentários Comunicar erro

Hariel exibindo a camisa do Corinthians em colab com a marca Sabotage
Foto: Carlos Fernando
Recentemente, o cantor Hariel provocou seu público nas redes sociais ao adiantar que apareceria com uma "peita" que o bando de loucos iria gostar. Quem viu o post nem imaginou o que estava por vir logo mais, quando o cantor subiu ao palco para se apresentar no "Festival Melhor Dia", na Neo Química Arena, vestindo uma camisa do Corinthians em collab com Sabotage, um dos maiores nomes do rap nacional.
O modelo usado pelo cantor era branco, com a marca do Sabotage em azul claro no lugar onde normalmente é colocado um patrocinador máster e com uma ilustração, também referenciando Sabotage, no lugar onde tradicionalmente fica a marca da fornecedora de material esportivo.
Uma camisa com o visual bem semelhante ao modelo utilizado pelo Timão no início dos anos 2000, referenciando um episódio envolvendo a ida do Sabota ao Pacaembu, para assistir ao Corinthians, no qual ele negocia com um ambulante a compra desse modelo de camisa na porta do estádio.
Em suas letras, Sabotage demonstrava o orgulho e as dores de ser um homem negro periférico, muitas vezes em tom de desabafo ou de conselho; contava a sua realidade e pregava o respeito e a humildade através da arte, com uma voz única e inconfundível.
Era um representante nato da periferia, o arauto de um povo muitas vezes ignorado pelo poder público e pela grande mídia e um espelho para aqueles que, de alguma forma, caíam em desgraça na vida, mas que buscavam a redenção. Ele mostrou que esse era um caminho viável, apesar de difícil.
Nascido Mauro Mateus dos Santos, Sabota se tornou o que foi através de cada tropeço e de cada acerto de sua caminhada. Lançou disco solo em uma época na qual a indústria musical era completamente excludente e preconceituosa com cidadãos à margem, ganhou notoriedade e se tornou o "Maestro do Canão", favela da zona sul da cidade de São Paulo, alcunha que carregava com orgulho, já que sempre demonstrava a consciência da importância do lugar de onde saía. Integrou o lendário grupo RZO, sendo parceiro da também corinthiana Negra Li, e construiu seu legado dentro e fora da arte.
O cantor é um dentre muitos que são o "Corinthians" e o corinthiano sintetizado em um ser. Daquele que apanha da vida e encontra o jeito certo de revidar, daquele que é jogado na correnteza sem saber nadar, mas, ainda assim, arruma um jeito de contrariar a morte certa, daquele que não desiste até encontrar o gol, a vitória, por saber que não se trata de teimosia... Se trata de destino. Ele era assim e, de certa forma, muitos e muitas hoje também são assim por causa de figuras como ele.
Mauro foi filho, foi pai, foi amigo... Foi luz e foi escuridão, foi um ser humano como qualquer outro, suscetível a erros e acertos, à resistência e às tentações; foi representante dele mesmo e de um monte de gente que sequer conhecia, mas para quem fazia companhia quando as chances jogavam contra. Foi a voz forte de um povo, do nosso povo, e, através da arte, se redimiu, venceu e se eternizou. Contra tudo e contra todos, de um jeito bem Corinthians de ser, encontrou um modo de clarear caminhos e de ser ouvido através do tempo. Assassinado em 2003, em um caso ainda sem explicações, contrariou a lógica e se tornou imortal por meio de cada lançamento ou participação póstuma, como com o próprio Hariel.
A collab do Corinthians com a marca Sabotage não é só uma homenagem a um grande representante de uma cultura tão importante para a periferia; é a solidificação de um elo, a reafirmação do "compromisso" que o Sabota tanto cantava, do próprio Corinthians com alguém que é a cara de sua torcida, que tem a identidade que tanto temos orgulho de cantar nas arquibancadas, mundo afora, que nasceu, foi criado e surgiu de um lugar onde o Timão se faz presente tanto quanto, que dialoga com uma camada da sociedade e alivia o seu sofrer ao escutá-la e representá-la ante as mazelas da sociedade e do Estado. A arte do Sabotage é, para as "quebradas", o que o futebol do Corinthians também é.
Viva a favela, viva o rap nacional, viva o Sport Club Corinthians Paulista e viva Sabotage, o eterno Maestro do Canão.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
Avalie esta coluna
Veja mais posts do Bruno Cassiano
-
Preto com listras brancas nunca sai de moda
-
Hugo Souza e a história que se repete desde os tempos de Barbosa
-
O que esperar de Fernando Diniz no Corinthians
-
O Corinthians de hoje e sua conexão com suas raízes de luta
-
O Corinthians precisa aprender com seus erros
-
Livre do transfer ban, Corinthians atua de forma consciente no mercado
