Onde foi parar a régua usada contra Augusto Melo no Corinthians?
Opinião de Daniel Keppler
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Augusto Melo durante coletiva de apresentação no Corinthians
Foto: Rodrigo Vessoni / Meu Timão
Aviso: esse texto NÃO É uma defesa do ex-presidente Augusto Melo, cassado do Corinthians graças às irregularidades cometidas no caso VaideBet. Desde já desautorizo o uso de qualquer trecho dessa coluna para esse fim.
Durante muitos anos, eu fiquei afastado da cobertura jornalística do Corinthians, acompanhando à distância, mais como torcedor mesmo - porém, sempre atento. Até que, em 2024, surgiu a oportunidade de retornar, na época pela Central do Timão. Graças a isso, posso dizer que acompanhei profissionalmente toda a gestão de Augusto Melo no clube, do início ao fim.
Com reportagens e análises, testemunhei de perto todas as fases da gestão do ex-presidente: a empolgação da torcida nas primeiras semanas, o princípio de desconfiança com algumas alianças e decisões, o estouro do escândalo envolvendo a empresa laranja no contrato da VaideBet, o desmanche da diretoria e toda a guerra que se seguiu, que polarizou o Parque São Jorge, parte da mídia e praticamente toda a torcida entre partidários e opositores do então presidente alvinegro.
Depois da saída definitiva de Augusto da presidência, eu tinha poucas certezas enquanto corinthiano, mas uma delas era cristalina na minha mente: todo o processo que levou ao seu impeachment deveria se tornar um novo padrão de cobrança para dirigentes no clube. As investigações nos órgãos internos, a fiscalização com lupa de todos os seus atos, os questionamentos constantes… era tudo o que eu sempre senti que faltou em gestões passadas, e que eu queria que passasse a acontecer com todas as gestões futuras.
Desde então, passaram-se seis meses em que Osmar Stabile é o presidente em exercício do Corinthians, após sua eleição indireta. Se contarmos o período como interino, são na verdade nove meses. E é impossível ignorar algumas questões sobre como seu mandato é analisado (e principalmente fiscalizado) em relação ao seu antecessor.
Eu ainda me lembro bem quando recebi, em 2024, os autos do processo de impeachment contra Augusto Melo e vi o excelente trabalho de apuração feito pela Comissão de Justiça do Conselho Deliberativo. O parecer, entregue após três meses de análises, era super detalhado e individualizava condutas sobre todos os envolvidos no caso VaideBet, embasando a abertura dos processos na Ética contra Augusto e seus aliados.
Atualmente, outro caso importante tramita nesse mesmo órgão: a análise dos gastos do cartão corporativo nas gestões passadas. Mas dessa vez, a coisa está um pouco diferente: após cinco meses de trabalhos, o único relatório já entregue cita apenas o ex-presidente Andrés Sanchez, sem mencionar as condutas de seus diretores que também teriam responsabilidade sobre a não fiscalização dos gastos indevidos.
Mais do que isso: os ex-presidente Duilio Monteiro Alves e Augusto Melo sequer foram ouvidos. E, ainda segundo informações de bastidores, o parecer já entregue (aquele contra Andrés) sequer contém uma cópia física das faturas analisadas, o que estaria atrasando os trabalhos da Ética nesse exato momento. Conseguem perceber a diferença ou estou doido?
Outro momento marcante da cobertura da gestão Augusto Melo, para mim, ocorreu em novembro de 2024, quando o Conselho de Orientação (Cori) emitiu um parecer sobre a análise das contas do primeiro semestre daquela gestão. Um documento longo, com quase 20 páginas, repleto de apontamentos sobre dezenas de atos considerados questionáveis ou irregulares, explicados às minúcias. Um verdadeiro raio-X que era concluído com um pedido de afastamento de Augusto do cargo. O tipo de fiscalização que sempre sonhei em ver no Parque São Jorge, que representava a razão de ser daquele órgão.
Pois bem. Avançando 11 meses no tempo, chegamos a outubro do ano passado, quando esse mesmo Cori se reuniu para analisar a revisão orçamentária proposta por Stabile. E o parecer entregue foi bem diferente: uma página, oito linhas, e uma mera menção a "aprovação unânime" baseada em "voto de confiança à atual diretoria". Sem levantar ressalvas, sem apontar possíveis gatilhos, sem nenhuma sombra do rigor adotado menos de um ano antes.
Alguém poderia argumentar nesse momento que naquela época a gestão Stabile era muito recente, portanto merecia um "tempo" para organizar a casa. OK, justo. Mas, ainda que os problemas no Corinthians fossem herdados do seu antecessor, eles certamente existiam. Por que não foram apontados, então, com essa ressalva? O que explica o desinteresse em destrinchar a situação do clube, como foi feito em 2024? Como aceitar que um órgão de fiscalização aprove uma peça orçamentária com base em "voto de confiança"?
Para completar esse cenário, a cada semana que se passa, os relatos de falta de transparência e desinteresse em prestar contas se multiplicam na atual gestão. Dentro do Parque São Jorge, acumulam-se os requerimentos de conselheiros e associados pedindo explicações sobre atos da gestão, que simplesmente não são respondidos. Fora do Parque São Jorge, a dificuldade de se confirmar informações aumenta proporcionalmente à inconveniência da pauta abordada. Uma situação muito, mas muito parecida com a da gestão Augusto Melo.
E essa semelhança chama atenção exatamente porque, à primeira vista, Osmar Stabile parece ser melhor que Augusto Melo. Um é um empresário bem estabelecido, enquanto o outro tem muito o que explicar à Justiça após o que fez no Corinthians. Então, o que explica tanto temor em prestar contas, em exibir o que tem feito, quais erros estaria corrigindo para melhorar o clube?
Nem vou falar sobre a resistência em procurar as autoridades em situações onde o momento exigia, comportamento também compartilhado entre os presidentes. já que um manteve a polícia longe do caso VaideBet enquanto pôde e o outro se nega a fazer um boletim de ocorrência para denunciar o vazamento da proposta da Ticketmaster, mesmo orientado nesse sentido pelo seu diretor de Tecnologia. Difícil entender.
Só uma coisa nessa história faz ainda menos sentido que a timidez de Stabile em se posicionar: a forma como os órgãos internos do clube vem atuando desde sua chegada ao poder, seja para apurar irregularidades no clube, seja para fiscalizar a atual gestão. E é por isso que eu não consigo parar de pensar: onde foi parar a régua que não deixaram de usar um dia sequer contra Augusto Melo?
Tenho certeza de que aquele rigor nos faria muito bem agora.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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