Mirar em Piccinato pelas derrotas do Corinthians abafa a culpa que vem da diretoria
Opinião de Daniel Keppler
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Lucas Piccinato é treinador do Corinthians Feminino desde 2024
Foto: Meu Timão
Há menos de uma semana, a torcida do Corinthians vivia um misto de tristeza e orgulho com a partida do time feminino no Mundial de Clubes. A derrota para o Arsenal, jogando na casa delas e forçando uma prorrogação que poucos esperavam, com alguns milhares de corinthianos apoiando nas arquibancadas, sob os olhares admirados do planeta, nos deixou esperançosos para o restante da temporada.
Era consenso, àquela altura, que a Supercopa, marcada para poucos dias depois da batalha em Londres, seria um jogo atípico e muito desafiador. Muitos, ainda indignados pela péssima condução da CBF na escolha do local e divisão de torcida contra o Palmeiras (divisão essa que jamais aconteceu, no fim das contas), chegaram a sugerir um boicote ou o envio do time Sub-20 alvinegro para o duelo. É óbvio que isso não aconteceu.
O que vimos na Arena Barueri foi a escalação de um time, surpreendentemente, muito próximo do ideal. Apesar de o elenco ter desembarcado no Brasil apenas na terça-feira. Apesar de as atletas terem se reapresentado apenas na quinta-feira, para treinos leves e testes físicos. Apesar de o time ter feito apenas um único treino de fato focado nas rivais da Supercopa, na sexta-feira, durando 60 minutos e nada mais.
Apesar de todos os pesares, fomos para o Dérbi com o que tínhamos de melhor. E o que vi em campo foi um time que sofreu com a desigualdade física, sim, mas que não se omitiu do duelo. Abriu o placar cedo, sofreu o empate, e teve todas as condições para vencer no tempo normal: duas bolas na trave e pelo menos quatro chances claríssimas de marcar o segundo, todas desperdiçadas. Nos pênaltis, três cobranças perdidas. Nenhum time que erra tanto contra um rival em uma decisão pode querer sair impune.
O vice-campeonato, terceiro seguido do Corinthians Feminino e (também) terceiro seguido em decisões contra o Palmeiras, bastou para que os torcedores entrassem em guerra nas redes sociais, apontando em sua maioria um culpado para as derrotas em sequência: o técnico Lucas Piccinato. Para essa parte da torcida, o treinador é o responsável pela derrocada do time desde 2024, com sua demissão sendo urgente.
É um discurso sedutor, porque é fácil e atende à ilusão da torcida de que os problemas das Brabas são simples de resolver. Justamente por isso, esse discurso também é extremamente perigoso. Ele disfarça outras responsabilidades, que explicam muito melhor porque a hegemonia alvinegra na modalidade vem sendo cada vez mais ameaçada - se é que ainda existe, da forma que conhecemos.
Lucas Piccinato está em sua terceira temporada à frente do Corinthians, aceitando um convite que outros profissionais não tiveram coragem de aceitar - alguns desses, inclusive, seguem sendo pedidos pela torcida por aí, mas enfim. Assumiu um trabalho que é insubstituível, insuperável. Ele nunca vai superar Arthur Elias. Nunca poderia. Mas alguém poderia? Penso que não, então essa não deve ser nossa régua para avaliá-lo.
Ele comete erros, é óbvio. Sua tomada de decisões é difícil de ler, muitas vezes. Mas o que mais importa sobre seu trabalho não está dentro de campo, e sim fora. Piccinato nunca teve as condições de trabalho que seu antecessor teve, e o responsável por isso despacha de segunda a sexta no quinto andar do Parque São Jorge.
O primeiro grande golpe da diretoria corinthiana contra Piccinato ocorreu logo após sua chegada. Cris Gambaré, que por anos deu a Arthur Elias o suporte que ele necessitava junto à gestão, comprando as brigas necessárias e chamando atenção para as pautas do departamento, rumou para a CBF e não deixou qualquer projeto administrativo como legado para o Corinthians. Indicou para seu lugar uma pessoa de sua confiança que, tenho certeza, faz o que pode, mas não é uma profissional de mercado, daquele tipo que o Corinthians precisava.
Ainda durante 2024, foi ficando claro, aos poucos, que a nova gestão não tinha o futebol feminino como uma prioridade. As poucas promessas do candidato Augusto Melo para a modalidade viraram um deserto de ações após sua eleição. Pela primeira vez, as jogadoras tiveram premiações sendo atrasadas e o final da temporada foi um verdadeiro show de horrores com a saída sem custo de atletas medalhistas olímpicas.
O ano passado seguiu no mesmo ritmo, com a perda de influência nos bastidores, reposições no elenco que fizeram o nível técnico da equipe decair, o sumiço do time da Neo Química Arena, o desleixo com a Fazendinha (interditada pela FPF por problemas de iluminação) e mais premiações atrasadas, logo após quitar as de 2024 com um ano de atraso. Importante dizer: a cassação de Augusto Melo e a chegada de Osmar Stabile não mudou quase nada deste cenário.
Veio aí, então, 2026. Com um Mundial de Clubes da Fifa em vista, a janela de transferência foi um pouco melhor, mas não o suficiente para preencher lacunas que foram escancaradas aos olhos de todo o planeta, sobretudo na defesa. Isso para não falar da questão envolvendo os vistos de Robledo, Day e Paola, que eu não sei, e talvez nunca vá saber, se fizemos mesmo todo o possível para evitar. Nem vou falar no verdadeiro desmanche que estamos sofrendo no staff do profissional e da base, isso valia uma coluna à parte até.
Enfim. São mais de dois anos onde os problemas alheios ao Corinthians Feminino afetam diretamente o departamento e sua capacidade de funcionar plenamente. E ainda assim, Piccinato possui 70 vitórias em 99 jogos, ou 77% de aproveitamento. Em 11 torneios disputados, apenas uma vez sua equipe não disputou o título, vencendo metade das decisões. É o único treinador na América do Sul a conquistar duas edições seguidas da Copa Libertadores. É um trabalho que tem seu valor, e isso não se pode negar.
Também é um trabalho que me faz questionar o quanto tudo poderia ser melhor se não fossem os problemas extracampo, sob os quais o treinador não tem qualquer controle. Teríamos determinadas jogadoras no elenco se o investimento nas janelas de transferência fosse maior? Nossas atletas jogariam mais motivadas se não estivessem há duas temporadas vendo suas premiações sendo atrasadas, com o dinheiro usado para outros fins no clube? Nossa capacidade de atrair grandes atletas seria maior se a instituição não vivesse com seu nome pipocando em páginas policiais e processos na Justiça?
Eu entendo que o meu ponto aqui é complexo. Além disso, eu não me sinto confortável de colocar todas essas questões sem levantar uma solução. O problema é que, na verdade, não há solução. O Corinthians está em crise, e essa crise está ferindo as Brabas. E analisar o trabalho de Piccinato sem colocar isso na conta é simplista. É um trabalho que está condicionado por limitações impostas a ele desde o primeiro dia, e que só vem se agravando desde então. E por isso, obviamente, é um trabalho cheio de tropeços, cheio de erros. E é um erro pensar que seria diferente com outro treinador no lugar.
Por esses erros, podemos e devemos culpá-lo. Ele não é inocente nessa história, assim como as jogadoras também não são. Mas a responsabilidade do Piccinato tem um limite, e esse limite é atingido quando a parcela de culpa que vem do quinto andar aparece. Não podemos fingir que ela não existe, nem devemos escondê-la.
Se queremos que, um dia, as Brabas sejam de novo tudo aquilo que nos acostumamos a ver, temos o dever de exigir que a diretoria dê a elas a atenção que fizeram por merecer após dez anos empilhando troféus e nos dando orgulho de ser corinthianos. É o nosso papel como torcedores. Que tenhamos sabedoria para exercê-lo.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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