Intervenção no Corinthians deixou de ser desejo da torcida e virou questão de tempo
Opinião de Daniel Keppler
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Escudo do Corinthians na fachada do Parque São Jorge
Foto: Gustavo Lima / Meu Timão
Entender o que aconteceu no Parque São Jorge nesta segunda-feira exige um afastamento que, eu sei, é difícil de pedir para o torcedor. A Fiel já está machucada demais por décadas de gestões que sangraram e ainda sangram o Corinthians e não tem mais tempo nem paciência de sobra para racionalizar os acontecimentos políticos do clube. Mas eu vou tentar mesmo assim.
A vantagem expressiva de conselheiros que votaram a favor do afastamento temporário de Romeu Tuma Júnior da presidência do Conselho Deliberativo (115 votos a favor e 15 contra) é, com certeza, uma mensagem clara e legítima da vontade daqueles que estavam ali presentes. É até possível imaginar que, talvez, essa diferença fosse menor caso o quórum da reunião fosse outro, já que mais da metade do CD faltou, mas não a ponto de reverter o resultado.
Ainda assim, nem mesmo toda essa diferença na votação consegue contornar o fato de que a reunião foi irregular. E não faltou gente para apontar isso - mesmo que a gente ignore a palavra do próprio Tuma, por ser parte interessada. O vice-presidente do CD, Leonardo Pantaleão, avisou que a convocação do presidente Osmar Stabile não seguiu o Estatuto. A Comissão de Justiça reiterou a falta de validade do encontro. Até mesmo o promotor Cássio Conserino, crítico de Tuma em diversas ocasiões, falou em "segurança jurídica rasgada" e "arrepio das normas internas" ao comentar o caso em um despacho.
O texto estatutário até diz, no artigo 112, que uma das várias competências do cargo de presidente é convocar reuniões do CD. Mas é no 82 que essa competência é regulamentada, com todo o passo a passo a seguir, caso uma convocação seja necessária. Hoje, no Parque São Jorge, ouvi muitos conselheiros se esforçando para fingir que esse artigo permite mais de uma interpretação, fazendo malabarismos lamentáveis e ignorando que o texto da norma é brutalmente direto: o presidente da diretoria pode pedir a reunião, mas é o presidente do Conselho quem deve convocá-la, em até 30 dias.
Houve ainda quem, durante a semana, levantasse nos bastidores um "precedente", citando uma reunião do CD em 2011, que foi convocada pelo então presidente Andrés Sanchez. No entanto, o edital daquela reunião veio à tona e provou que o argumento era uma falácia, afinal, em 2011, Andrés tentou convocar a reunião do jeito certo, mas teve o pedido ignorado por quatro meses pelo então presidente do Conselho, Carlos Senger, que ainda desconsiderou outro pedido igual, assinado por mais de 50 conselheiros. Somente depois disso, Andrés convocou a reunião por conta própria.
Não há comparação com o caso atual envolvendo Stabile, que, desde o princípio, ignorou o artigo 82 do Estatuto, até mesmo em suas argumentações privadas em defesa da convocação da reunião, onde citava apenas o artigo 112, que é o que na teoria lhe "favorece". Mas leitura de Estatuto se faz no todo, e não em parte, justamente para se evitar leituras políticamente contaminadas. E é exatamente a política, inclusive, que ajuda a entender não só a reunião como seus antecedentes.
O pedido de afastamento de Tuma foi originado em denúncias de Stabile, feitas no dia da votação da reforma do Estatuto - cujo projeto retiraria muitas brechas políticas do Corinthians, além de aumentar muito o controle sobre os atos de gestão. O novo Estatuto, se aprovado em abril, valeria para todo o segundo semestre da gestão do atual presidente. Ele teria que justificar tecnicamente suas indicações para a diretoria; teria que colocar em prática uma transparência administrativa que nunca executou desde maio de 2025; e não poderia contar com os votos dos funcionários do clube na eleição de novembro. Ou seja, só problemas.
Junte-se a isso o fato de as denúncias do presidente diante dos conselheiros terem sido regadas a reclamações sobre um suposto "excesso de cobranças" sobre suas decisões à frente do clube, como se fosse uma ofensa ter que prestar contas. Stabile menciona, durante a reunião, que "todo dia chega documento para responder" e que essa situação não era aceitável, esquecendo-se que o mesmo artigo 112 do Estatuto, antes mencionado para justificar a convocação do CD nessa segunda, também deixa clara sua obrigação em dar satisfações aos órgãos internos do clube.
Vale lembrar ainda que, em abril, os órgãos internos do Corinthians irão analisar as contas de 2025 da gestão. No Conselho Fiscal, a diretoria não deverá ter dificuldades, já que o órgão é comandado por Haroldo Dantas, advogado das empresas do presidente e conhecido nos bastidores como "o homem do Osmar", por considerá-lo um de seus "melhores amigos". No Conselho de Orientação, a vida também não deve ser muito difícil, considerando a complacência com que o grupo vem tratando os atos diretivos em geral desde que Augusto Melo deixou o cargo.
Agora, no Conselho Deliberativo, talvez a gestão encontre alguma dificuldade. Afinal, embora Stabile tenha vencido a eleição indireta em agosto, com o apoio de 199 conselheiros, o desgaste subsequente foi inevitável, com cobranças pelo cumprimento de promessas políticas e o fatiamento da diretoria em grupos antagônicos. Além disso, é enorme o risco de um rombo nas contas do ano passado, provocado por uma temporada de altos gastos, receitas em queda e uma transação tributária que só foi aprovada em 2026, cujos efeitos ninguém garante que poderão ser lançados no exercício anterior. Ou seja: havia uma necessidade crescente de surgir um fato político novo para turbinar o apoio da gestão no CD.
Outra questão importante: nesta quinta-feira, a Comissão de Ética possui uma oitiva marcada com Andrés, para ouvi-lo na investigação do caso dos cartões corporativos. Hoje, após a reunião, ouvimos de um dos conselheiros que mais se esforçou para viabilizar a votação que "teria que ver" como a Ética ficaria no caso de o afastamento de Tuma ser concretizado, pois Pantaleão teria que assumir seu lugar, deixando a própria Ética - e ele é o relator do caso contra o ex-presidente. Quem ganha com a remoção forçada de Pantaleão do processo contra o ex-presidente?
Todo esse contexto importa ao analisarmos a mudança de estratégia do presidente, que, em um primeiro momento, escolheu dinamitar a reforma do Estatuto com uma denúncia que poderia ser feita de mil formas diferentes, levando o caso à Ética apenas depois disso, e movido por pressão externa. No entanto, dias depois, Stabile decide convocar o Conselho para afastar Tuma, no mesmo dia em que o próprio Tuma enviou a ele um pedido de respostas dos diversos ofícios enviados à diretoria e que, passados meses, não tiveram qualquer retorno. Coincidência ou retaliação?
No fim das contas, a reunião aconteceu e, após seu fim, Stabile deixou o auditório do Parque São Jorge prometendo voltar para falar com a imprensa - obviamente não voltou. E se em um primeiro momento seu objetivo político foi conquistado, é difícil enxergar esse afastamento sendo concretizado de fato. Pantaleão, que deveria substituir Tuma, já se posicionou expondo novamente a ilegalidade do encontro. Logo, restará a Stabile recorrer à Justiça para tentar forçar a saída de seu rival, assim como tantos tentaram fazer sem sucesso durante o impeachment de Augusto Melo e após a tentativa de golpe no 31 de maio do ano passado.
Para piorar, a medida do presidente não representou na prática apenas um golpe interno no Corinthians. Foi também um exemplo de manual do que significa "ruptura institucional" em uma entidade privada. Afinal, estamos falando da presidência do segundo órgão mais importante da hierarquia administrativa do Corinthians, abaixo apenas da Assembleia Geral de sócios. Podemos discutir se o CD cumpre ou não seu papel e se os conselheiros estão ou não à altura da instituição, mas a letra fria da lei é implacável com rupturas desse tipo, independente de qualquer juízo de valor sobre quem ocupa os cargos - e o Ministério Público certamente não estará alheio a isso.
Preciso lembrar aqui que a intervenção judicial no Bahia só aconteceu porque, em um dado momento, a diretoria no poder resolveu retirar dos cargos algumas dezenas de conselheiros opositores, sem qualquer motivo ou processo legal. Um desses conselheiros foi à Justiça, expondo uma série de irregularidades da gestão e abrindo caminho para uma mudança real após uma guerra de liminares que durou um ano e meio, atrasando a saída da gestão irregular. Mas tudo começou com um conselheiro removido ilegalmente de seu posto.
Até essa segunda-feira, eu enxergava a intervenção como uma possibilidade distante, apesar do desejo de boa parte da torcida, farta após ver o clube vítima de tantas más gestões. Mas agora, eu já entendo que ela é, na verdade, uma questão de tempo, pois quando uma medida ilegal é validada só por atender aos interesses políticos do momento, a porta para a anarquia administrativa é aberta. E essa porta foi aberta de forma totalmente consciente, depois de muitos avisos e pedidos de prudência.
Que o Corinthians possa sobreviver a toda essa patifaria.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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