A inesperada herança que a Assembleia Geral suspensa pode deixar ao Corinthians
Opinião de Daniel Keppler
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Assembleia Geral que para a reforma do Estatuto ocorreria neste sábado no Corinthians
Foto: Maria Beatriz de Teves / Meu Timão
Essa segunda-feira deveria ser de movimentação no Parque São Jorge. Deveria ser o dia em que a Comissão de Reforma do Estatuto do Corinthians se reuniria para juntar todos os itens aprovados na Assembleia Geral de sábado, finalizar o documento e enviá-lo para o cartório, para que passasse a ser válido como o novo conjunto de regras do clube.
Mas nada disso vai acontecer. Graças aos conselheiros vitalícios Ademir Benedito, Alexandre Husni e Guilherme Strenger, a reunião foi suspensa na Justiça e não aconteceu. Com isso, por ora, as eleições no Corinthians permanecem restritas aos associados, sem o Fiel Torcedor presente - sem falar em todas as outras melhorias que o projeto traria, conhecidas por todos que leram o projeto com honestidade, sem interesses particulares ou influenciados por gente mal-intencionada.
É verdade que a luta política no Parque São Jorge contra a reforma do Estatuto não foi exclusiva dos conselheiros vitalícios. Muitos trienais também se aliaram a estes, na tarefa de sabotar o processo, contando até mesmo com uma ajudinha do jurídico da gestão quando foi preciso. Vale mencionar, inclusive, o papel do Conselho de Orientação (Cori), nessa sabotagem - um órgão que a cada mês vem reforçando sua atuação ilegal como poder paralelo no Corinthians, movido pelo senso de impunidade dos seus membros natos e pela arrogância de seus membros eleitos.
Mas é necessário que fique claro: ainda que alguns trienais tenham apoiado, ainda que o Cori tenha sido usado como muleta na sabotagem, o papel central é dos vitalícios. Apesar de apenas três terem assinado o pedido de liminar para suspender a assembleia, muitos outros, nas sombras, apoiavam a medida. E com isso, ficou escancarado, como poucas vezes antes, o desserviço que essa função representa no Corinthians.
Se um dia, há muitas décadas, alguém pôde ter agido de boa fé ao criar os conselheiros vitalícios no Parque São Jorge, talvez confiando na boa fé das pessoas, em uma época em que o futebol era mais romântico e menos bilionário, hoje esse cargo não só não tem mais razão de ser. Pelo contrário: a existência dos vitalícios sintetiza tudo de que o Corinthians menos precisa.
São figuras que agem como um verdadeiro Centrão no Parque São Jorge, vivendo às custas de favores políticos e apoiando quem lhes beneficiar mais. Alheios ao crivo popular da eleição, por não precisarem mais ser eleitos, eles têm validado todas as últimas gestões do Corinthians, influenciando em inúmeros momentos deprimentes da nossa história recente. Qual foi a última vez que você se lembra de ter visto os vitalícios ligados a uma manchete positiva no clube?
O papel patético exercido por este grupo nos debates da reforma do Estatuto não passou despercebido. Movimentos cobrando a extinção do cargo surgiram, ali e aqui. O conselheiro trienal Peterson Ruan chegou a cobrar do Conselho Deliberativo que indicasse sob qual contexto cada um dos vitalícios ganhou seu cargo, mas o pedido foi arquivado. Pior: ele, Peterson, foi alvo de denúncia na Comissão de Ética, em um pedido histérico assinado por dezenas de vitalícios. Felizmente, esta denúncia também foi arquivada.
Há alguns dias, ele se juntou a associados em uma ação judicial com o mesmo tema: a extinção do cargo de conselheiro vitalício. Não posso afirmar que o grupo se moveu pela suspensão da Assembleia de sábado, mas o timing me permite associar as coisas. No meu mundo ideal, essa ação judicial seria seguida de outras, de outros associados e coletivos, com o mesmo propósito. Também seria apoiada por conselheiros trienais, aqueles que não têm medo da influência dos vitalícios nem se deixam comprar por eles. Onde estão? Terão coragem de apoiar a pauta? Ou estão esperando o fim do ano para tentar virar, eles mesmos, os próximos vitalícios e preencher uma das vagas que estão abertas?
Os vitalícios que, eventualmente, acham que conseguem contribuir positivamente com o Corinthians, não deveriam ter medo da proposta. Pelo contrário: deveriam apoiá-la, pelo bem que faria ao clube ter um Conselho Deliberativo 100% eleito pelos associados. E se quiserem continuar contribuindo com o clube, ora, basta candidatarem-se e certamente serão reconhecidos pelos seus bons serviços. Ou o medo das urnas seria mais forte?
Talvez estejamos testemunhando o momento mais vulnerável já vivido pelos vitalícios no Corinthians. E é muito poético que isso ocorra justamente agora. Os últimos dias foram tristes para o clube, mas se tudo isso levar, nos próximos meses, ao fim desse cargo, que, atualmente, só serve para parasitar o clube e seu dinheiro, ah, seria uma linda herança deixada por essa Assembleia que nem aconteceu, mas deixaria suas marcas na nossa história.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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