Virou obrigação do Corinthians viabilizar a renovação de Memphis Depay
Opinião de Daniel Keppler
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A dupla titular de ataque do Corinthians escolheu maneiras diferentes de falar do futuro
Foto: Rodrigo Coca / Ag.Corinthians
Não é à toa que o ditado "a vida é feita de escolhas" é tão popular. É porque ele é verdadeiro. E dois atacantes do Corinthians provaram isso nos últimos dias: Memphis Depay e Yuri Alberto. Enquanto um escolheu convidar uma organizada para ir à sua casa e praticamente implorar por apoio à sua renovação contratual, o outro escolheu usar sua entrevista na zona mista, após um jogo em que foi protagonista da vitória, para dizer com todas as letras que quer ser vendido nessa janela, pois seu ciclo se encerrou.
A diferença entre as duas escolhas foi de dois dias, mas só soubemos da reunião entre Memphis e Gaviões da Fiel nesta quinta de manhã, quando a torcida divulgou uma nota oficial sobre o encontro. Nela, é revelado que o atacante neerlandês disse que deseja ficar no Corinthians, que está disposto a cortar regalias e reduzir salário para isso, que está à disposição para auxiliar em projetos de marketing que viabilizem isso. Foi um verdadeiro apelo à organizada, talvez visando ao início de uma pressão pública para que o clube se esforce mais em renovar seu vínculo.
Horas depois, o Timão venceu o Barra na Neo Química Arena por 1 a 0, com gol de Yuri Alberto, que quebrou um jejum de nove jogos sem marcar. E o que poderia ser uma entrevista alegre, de desabafo, após o jogo, transformou-se em uma virtual declaração de saída do Corinthians. Muito embora, no decorrer das respostas, ele tenha tentado contemporizar, a mensagem foi clara: ele quer sair na próxima janela, e a diretoria não só sabe como se comprometeu a tornar essa saída possível.
Vejam, eu lembro muito bem do "sonho" do Yuri Alberto de atuar na Europa. Não questiono que em algum momento ele quisesse, sim, deixar o Corinthians. O ponto não é esse, mas sim o timing e a forma de falar. Ele escolheu o pior momento e a pior forma para falar sobre o tema, no melhor modo "sincericida". Escolha ruim. Primeiro, pois não precisava: todos sabem que seu nome é um dos mais cotados para negociações no meio do ano. Segundo, pois poderia ter indicado o "fim de ciclo" sem deixar tão claro que ele não só aceita ser vendido, como quer ser vendido. Percebem que há uma diferença entre essas duas coisas?
Eu tenho dúvidas sobre que clube, nesse mundo do futebol, terá tanta paciência com Yuri Alberto quanto o Corinthians teve. Sobre relação com torcida, então, nem se fala. Quais torcidas irão, assim como a Fiel fez desde 2022, demonstrar apoio independentemente de fase, tolerar os diversos gols perdidos, se alegrar com os choros de superação e defendê-lo incansavelmente, de tudo e de todos, custe o que custar? Eu digo: nenhuma.
A escolha de Yuri Alberto tem duas consequências imediatas. Uma delas é a sua própria desvalorização. Nenhum clube europeu procurará o Corinthians com uma boa oferta, estando ciente do desespero do jogador por sair e da situação financeira do clube. Esqueçam 20 milhões de euros pelos 45% do Timão. Se conseguirmos 14, 15 milhões, já será uma vitória. E o clube vai vender, não só porque precisa, mas porque o jogador vai forçar. Eu não me engano com a conversa do "tem que ser bom para ambos". Quem quiser se enganar que fique à vontade.
Mas há outra consequência, e essa tem relação direta com Memphis. Uma saída do Yuri Alberto faz o Corinthians ser obrigado a manter o camisa 10. E não, eu não escolhi a palavra errada: é obrigação mesmo. Não existe um mundo em que, perdendo Yuri Alberto, o Corinthians também se livre de Memphis. E a explicação é muito simples.
A saída do 9 alvinegro abrirá um valor considerável de folha salarial. Eu não acredito que nenhum atacante bom o suficiente para merecer o mesmo salário seja contratado pelo Corinthians como reposição. Jogadores desse nível já estão vinculados a outros clubes, e não temos como comprá-los. Ou seja: qualquer reposição a Yuri Alberto custará menos, de salário, do que ele.
Dito isso, é obrigação do Corinthians organizar a folha salarial para que essa diferença de valores seja direcionada a Memphis. Eu estou aqui trabalhando com a hipótese de o clube conseguir apenas um parceiro para bancar sua renovação - várias apurações dão conta de que ao menos uma empresa negocia bancar parte dessa operação. Com a saída de Yuri Alberto, não há motivos para que o Timão não aceite pagar o que faltar, caso não encontre uma segunda empresa.
Essa obrigação só se torna ainda mais escancarada se considerarmos que o jogador já aceitou cortar regalias e reduzir o salário - e essa informação já foi confirmada por algumas fontes importantes. Logo, não é impossível imaginar que a parte que caberia ao Corinthians, nesse cenário, seria algo próximo do milhão por mês. Não existe um mundo em que esse negócio não seja viável.
Eu sei, todas essas ideias se baseiam em algumas certezas, especialmente na venda do Yuri Alberto nessa janela. Mas alguém aí, neste momento, imagina que isso não vai acontecer? Eu, sendo muito honesto, entendo que o ciclo do jogador se encerrou nesta quinta-feira. Ele pode seguir atuando (embora eu pense que não deveria), mas entendo que a cabeça do jogador não está mais aqui. Quando esse tipo de declaração é feita, é porque o atleta já foi embora, e só o corpo dele segue ali.
E é por causa disso que o Corinthians não pode se dar ao direito de perder também Memphis. Ver os dois partindo na mesma janela seria um erro gigantesco da gestão Osmar Stabile, e um alvo em suas costas durante as eleições, no qual os concorrentes não pensariam duas vezes antes de mirar. Torço para que ele tenha consciência disso, pare de ouvir maus aliados no Parque São Jorge, e faça a coisa certa.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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