Vi o Casagrande homenageando o prefeito de Nova York após ele citar o Corinthians. Nada contra o prefeito ou contra a homenagem em si. O problema é a seletividade. Tenho certeza de que, se o rei da Holanda, ou qualquer outra personalidade identificada com posições mais conservadoras, citasse o Corinthians da mesma forma, muitos dos que hoje aplaudem provavelmente desdenhariam ou minimizariam o fato. E é justamente esse tipo de filtro ideológico que me incomoda. O Corinthians é grande demais para ser usado como símbolo exclusivo de qualquer corrente política. Ele não pertence à direita, à esquerda ou ao centro. Ele pertence ao povo. E quem é o povo? É o meu avô, um senhor de 80 anos que trabalha na roça, ouve Lourenço & Lourival e tem posicionamentos conservadores. É também um jovem de 14 anos, fã de funk e de Hariel. É o bancário que mora em um dos condomínios mais caros de São Paulo e acompanha Fórmula 1. É o plantador de abacaxi do Acre que colhe açaí nos fins de semana. Tudo isso é o povo. O que me preocupa é a supervalorização de um único recorte da história corinthiana, especialmente o relacionado à Democracia Corinthiana, como se ela resumisse toda a identidade do clube. Foi um capítulo importante? Sem dúvida. Mas o Corinthians é muito maior do que isso. Enquanto muitos ficam presos a discursos e símbolos do passado, décadas de administrações no mínimo questionáveis, passaram quase sem o mesmo nível de cobrança. Vangloriam uma churrasqueira construída no Parque São Jorge, celebram ideias que nunca saíram do papel e vendem narrativas bonitas enquanto escondem os verdadeiros problemas do clube. Ao mesmo tempo, ignoram a grandeza absurda que o Corinthians possui. Só para dar um exemplo: aqui em Cascavel, no Paraná, parece que metade da cidade é corinthiana. Em várias regiões do Norte do Paraná, a presença da torcida é gigantesca. E isso falando apenas de uma pequena parcela do Brasil. Imagine o potencial que o Corinthians tem no restante do país, na América Latina, entre descendentes de brasileiros espalhados pelo mundo e entre torcedores que se identificam com a história do clube. O Corinthians tem tamanho para ser uma potência global de receitas, marketing e influência esportiva. Mas insistem em apequená-lo. Vivemos ouvindo frases como: 'o Corinthians não pode mudar', 'isso não faz parte da essência corinthiana', 'sempre foi assim'. Só que o mundo muda. O futebol muda. A forma de consumir esporte muda. A tecnologia muda. Adaptar-se não significa perder a essência. Pelo contrário: significa garantir que essa essência sobreviva e se fortaleça. Nossos maiores rivais são exemplos disso. Enquanto alguns setores resistiam a qualquer mudança, presos ao passado e combatendo qualquer renovação, eles afundaram, chegaram a cair para a segunda divisão e pagaram um preço alto pela falta de visão. Só começaram a se reconstruir quando houve renovação, profissionalização e união em torno de um projeto maior que os interesses pessoais. Hoje, infelizmente, a torcida corinthiana está dividida. Mas o Corinthians nunca foi dos dirigentes. Nunca foi dos grupos políticos. Nunca foi dos conselheiros profissionais. Nunca foi dos oportunistas que usam o clube para benefício próprio. O Corinthians é do povo. E será justamente o povo corinthiano, unido, cobrando, fiscalizando e participando, que terá força para retirar esses ratos de dentro do clube e recolocar o Corinthians no lugar que ele merece estar. Porque a história do Corinthians não é de acomodação. É de luta. E a maior luta do Corinthians, neste momento, é contra aqueles que insistem em impedir que o gigante volte a enxergar o tamanho que realmente tem. Vai Corinthians!