Quanto tempo durará a melhora súbita do Corinthians associativo?
Opinião de Daniel Keppler
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Parque São Jorge na tentativa de recondução do ex-presidente Augusto Melo ao cargo, em maio de 2025
Foto: Meu Timão
Quem trabalha em alguma área da medicina ou já perdeu algum parente após uma doença grave sabe bem o que é a chamada melhora súbita. Aquele momento em que um paciente, meio que do nada, parece protagonizar uma recuperação meteórica nas suas condições. Ele fica mais lúcido, sente menos dor, tem mais apetite e aparenta total capacidade de se restabelecer.
Porém, essa melhora é transitória e não significa uma recuperação real. Via de regra, poucos dias depois, parentes e amigos testemunham uma deterioração nos sinais vitais do indivíduo, tão rápida quanto a melhora anterior. E tudo culmina em um falecimento que, por alguns momentos, parecia que seria evitado. Mas o que raios isso tem a ver com o Corinthians?
Nas últimas semanas, a torcida alvinegra tem testemunhado uma série de ações e medidas que, diante do contexto dos últimos anos, podem ser taxadas de positivas. Contratos com patrocinadores cujos valores estavam defasados vem sendo negociados, visando uma valorização e, portanto, mais receitas ao clube. Outras modalidades foram liberadas a buscar parcerias, inclusive para o espaço máster que hoje é ocupado pela Esportes da Sorte no futebol feminino e basquete.
Em outra frente, o executivo de futebol Marcelo Paz foi contratado, adotando um discurso realista sobre a gestão de elenco do Corinthians, diante das condições financeiras do clube. Maycon deixou o clube, pois suas exigências salariais não foram atendidas. Angileri parece seguir o mesmo caminho, pelo mesmo motivo: o clube tem um teto e não vai quebrá-lo por ninguém.
Também coube ao novo dirigente conduzir as negociações para reforçar o elenco, após a queda dos transferbans da FIFA e da CNRD - o que foi possível após a quitação de débitos urgentes como aqueles que o Corinthians mantinha com o meia Matías Rojas e o clube mexicano Santos Laguna. Segundo Marcelo Paz, o clube quitou mais de R$ 100 milhões em dívidas nestes primeiros dias de 2026, utilizando-se a premiação da Copa do Brasil e os recursos levantados junto à LFU - em operação, vale apontar, controversa por conta dos altos juros envolvidos.
Gabriel Paulista e Matheus Pereira chegaram, Pedro Milans está a um CPF de distância de ser apresentado, Kaio César é esperado no Brasil, João Ricardo só precisa passar nos exames médicos e nomes como Alisson, Vinicius Souza e Vitinho são analisados. Reforços (e possíveis reforços) com baixo custo (ou nenhum) e que, para chegar, tiveram que se adequar ao teto salarial estipulado. Sem loucuras em vista.
Até mesmo no Parque São Jorge as notícias parecem estranhamente positivas. A Comissão de Ética finalmente cumpriu seu escopo ao recomendar a expulsão de dez conselheiros que extrapolaram o limite de faltas no Conselho Deliberativo - um delito historicamente relevado pelos órgãos internos do clube. A recomendação foi acatada no dia seguinte pelo presidente do CD, Romeu Tuma Júnior.
Poucos dias depois, na verdade nesta terça-feira, a Comissão de Justiça concluiu as análises sobre os gastos pessoais do ex-presidente Andrés Sanchez no cartão corporativo do Corinthians entre 2018 e 2021, e agora a Ética poderá deliberar sobre o caso e recomendar uma punição, que pode chegar até mesmo à expulsão do ex-dirigente, que também está na mira do MP.
Já nesta quarta-feira, será a vez de as audiências públicas sobre a reforma do estatuto serem retomadas, outra medida do Conselho Deliberativo que tenta demonstrar o interesse em modernizar as bases legais do clube, adequando suas normas às legislações recentes e profissionalizando a gestão com mecanismos que coíbem gastos excessivos e impõem mais transparência nos processos internos.
A mensagem que o Corinthians parece tentar passar com todas estas medidas parece ser a de que a instituição é, sim, capaz de se recuperar por conta própria. Não parece um movimento totalmente organizado, nem totalmente profissional, mas existe uma clara estratégia nesse sentido. E a resistência do presidente Osmar Stabile em abrir as portas do Parque São Jorge para discutir os termos do projeto SAFIEL parece confirmar essa impressão - afinal, para que instituir uma SAF se o clube pode se recuperar sozinho?
O problema é que, ao mesmo tempo em que essa tal estratégia parece mostrar uma melhora institucional no Time do Povo, parece soar como os sintomas de um paciente em melhora súbita. Antes à beira da morte, que para o Corinthians seria uma falência, agora é possível até dizer que o ambiente melhorou a ponto de alguns acreditarem que, talvez, o fundo do poço não seja tão fundo assim.
A reação do associativo alvinegro responde a pressões que vinham de todos os lados: da torcida, já intolerante a qualquer gesto do Parque São Jorge; do mercado, cada vez exigindo mais responsabilidade da gestão, começando a se movimentar para propor modelos alternativos ao atual; e das autoridades, que investigam os últimos três ex-presidentes do clube e analisam a possibilidade de uma intervenção judicial ser decretada. Mas será suficiente?
Não dá para negar que 2026 começou melhor para o Corinthians que 2025 ou 2024. Mesmo assim, tenho a impressão de que a tolerância com o atual modelo de gestão do Corinthians chegou a um ponto de ruptura que algumas notícias positivas não são capazes de fazer retroceder. Seriam necessárias outras medidas, mais radicais, para que a credibilidade e confiança comecem a ser resgatadas. Haverá coragem para tomar essas medidas?
Acredito que só o tempo nos dará esta resposta. O Corinthians não para e tudo pode mudar da noite para o dia, ainda mais naquele mundo à parte do Parque São Jorge. Talvez, apenas talvez, a melhora súbita desse gigante evolua e, a longo prazo, se torne uma alta milagrosa. Mas preciso confessar que, no momento, minha confiança nessa possibilidade ainda é muito pequena.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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