Estão banalizando o 'estilo Corinthians'
Opinião de Juliano Barreto
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Fabinho fez a jogada que acabou em gol de Tupãzinho
Foto: Arquivo Placar
Há tempos o tal do “jeito Corinthians” faz parte da mitologia alvinegra, e o que isso significa pode variar bastante de torcedor para torcedor, de geração para geração. Na minha opinião, tem a ver com a determinação, coragem, e força para superar obstáculos que parecem insuperáveis. Mas você já reparou como, de uns anos para cá, essa ideia tem sido deturpada e banalizada?
Ganhar “do jeito que o corinthiano gosta” não tem nada a ver com complicar jogos teoricamente fáceis. O “sofrimento” que é exaltado pela torcida é sobre resiliência. É sobre aguentar o tranco e seguir de cabeça erguida até conquistar o objetivo. O motivo de dizer “Graças a Deus” por ser maloqueiro, corinthiano e sofredor vai por aí. Reverter um cenário que está totalmente contra você na base da fibra. É o mais fraco surpreendentemente vencendo o mais forte.
Muito legal, muito bonito, mas não pode ser usado para justificar incompetência e soberba. Tem sido cada vez mais normal ouvir de jogadores, dirigentes e de parte da torcida que tal vitória foi “no estilo Corinthians” quando na verdade não rolou nada digno de palmas. Soa como acobertar performances fracas usando a paixão da torcida como desculpa.
Segundo o site Transfermarkt, o valor combinado de todos os atletas do Universidad Central da Venezuela é de 5.8 milhões de euros. Isso é um terço do que valeria o Yuri Alberto sozinho. Usando as estimativas do mesmo site, o elenco do Corinthians combinado valeria mais de 110 milhões de euros. Isso sem falar de salários, estrutura para treinar, estrutura para jogar, etc.
Futebol não é basquete, onde o “time melhor” ganha do “time pior” nove vezes em dez jogos, mas mesmo assim não dá para dizer que um leão matando uma gazela é um exemplo de superação, raça, e fibra do predador. É até constrangedor ver o mais forte contando vantagem por ter batido no mais fraco. E para não ficar apenas no exemplo do jogo mais recente, vale lembrar as campanhas recentes do Corinthians na Copa do Brasil.
Aos trancos e barrancos, com atletas sem receber salários e empresários tirando jogadores do time no meio das competições, o Corinthians chegou longe e quase beliscou um título. Agora, dá para dizer que ganhar no sufoco do América-MG ou do Juventude é ganhar no "estilo Corinthians"?
Cada torcedor pode ter seu próprio conceito sobre o que é “o jeito Corinthians”, mas para mim, definitivamente a identidade do clube não foi forjada com vitórias suadas contra times insignificantes.
Muito pelo contrário. Penso que as vitórias “no estilo Corinthians” são aquelas conquistadas no limite, contra os adversários dados como francos favoritos. São campanhas, não só jogos, que terminam com títulos improváveis.
É o time do Neto e Tupãzinho derrotando o poderoso São Paulo do Telê Santana em pleno Morumbi em 1990.
É o time cheio de moleques em 1995 ganhando do Palmeiras-Parmalat e do Grêmio do Felipão no mesmo ano.
Pode também ser o time que ganhou o Paulista em 2001, com direito a dez vitórias seguidas e aquele gol do Ricardinho no último segundo contra o Santos.
Enfim, não faltam exemplos antigos ou recentes, como os títulos do time chamado de “quarta força” de 2017 ainda estão frescos na memória.
Misturar essa história com jogos como esse contra os venezuelanos é como colocar a vitória contra o Cianorte na mesma prateleira do triunfo contra o Chelsea. É bom ganhar de qualquer jeito, porque no final das contas é isso que importa. Só não venham me falar que isso é o “estilo Corinthians”.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
