Uma tristeza maior do que o mundo
Opinião de Juliano Barreto
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Rincón levantando a taça do primeiro título do Mundial de Clubes do Corinthians, em 2000
Foto: Divulgação/Corinthians
Nas últimas semanas, ouvimos o nome do Corinthians várias e várias vezes durante a Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Apesar do orgulho de ser o último campeão que não veio da Europa, é triste se lembrar que desde 2012 o Timão não chegou sequer perto de disputar um Mundial de novo.
Para mim, porém, a maior tristeza não está nesse presente imundo, cheio de corrupção e bandidagem no Parque São Jorge. A minha maior dor é lembrar do primeiro Mundial de Clubes em 2000, quando o Corinthians parecia finalmente entrar nos eixos administrativamente. A empolgação não era só com o time em campo, mas fora dele, parecia que o Corinthians finalmente firmava uma parceria com gente séria.
Hoje muitos imaginam que a única saída de desratizar o clube seja a chegada de um grande investidor, com uma administração qualificada, e grana para trazer jogadores de bom nível. Esse sonho da SAF, embora com outro nome, já aconteceu e foi lindo enquanto durou.
Foi em abril de 1999, quando o fundo de capital privado Hicks, Muse, Tate & Furst Inc., dos Estados Unidos, comprou 85% do departamento de futebol. Deixando 15% das receitas para o clube em troca de abocanhar todo o dinheiro da TV e dos patrocinadores. O acordo previa um forte investimento para zerar dívidas, contratar reforços, e até mesmo construir um estádio.
Sem muita enrolação, a coisa andou rápido e foi um sucesso imediato. Meses após a assinatura da parceria, o Corinthians montou um timaço. Foram R$ 53 milhões (US$ 30 milhões na época) para trazer craques, como Dida e Luizão, assinar em definitivo com Edílson e Vampeta, e ainda apostar em promessas como Marcos Sena, João Carlos, e Luiz Mário, entre outros.
O Corinthians até inovou na montagem da nova diretoria, trazendo o técnico de vôlei José Roberto Guimarães que, mesmo duas décadas atrás, já era considerado um dos maiores profissionais da história do esporte nacional.
Com o investimento recorde e administração profissional, não deu outra. O Corinthians foi campeão brasileiro de 1999 de maneira indiscutível. O time de Oswaldo de Oliveira liderou a competição praticamente de ponta a ponta, com futebol bonito e estádios abarrotados. Vencer o Mundial de Clubes em 2000 foi apenas consequência. A Hicks tinha contrato válido por 10 anos e já se falava em ampliar para 20. Parecia que finalmente o potencial gigantesco do Corinthians seria alcançado em sua plenitude.
Só parecia…
Já em 2000, com uma alta histórica do dólar, os contratos da Hicks ficaram impraticáveis no Brasil (culminando na falência do canal de TV paga PSN, também financiado pela Hicks) e a fonte dos investimentos secou drasticamente.
Os americanos ainda poderiam continuar, mas a politicagem tomou conta e a parceria acabou melancolicamente em 2002. As ratazanas do Parque São Jorge, enciumadas por serem colocadas de lado, sabotaram o parceiro (às custas do clube, claro).
Daquele ponto em diante, o clube começou a rotina de processos trabalhistas milionários de jogadores que passam meses sem receber salários, dos contratos de patrocínio com comissões obscuras, as vendas de jogadores da base à preço de banana, etc. Viria outra parceria em 2005, viriam muitos outros títulos, mas a repetição de sempre "vender o almoço para comprar a janta" jamais terminou.
Deu para sentir um gostinho do que seria um Corinthians tocado por gente profissional. E essa é a tristeza que é maior que o mundo. Ter certeza do gigantesco potencial que segue sendo desperdiçado.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
